AGONIA AO PORTÃO

O que há de comum entre dois recintos abandonados, um em Cabo Verde e outro nos arredores de Berlim? São os dois locais do planeta onde me senti verdadeiramente agoniado. Uma sensação de enjoo, instalando-se lentamente, foi crescendo dentro de mim até se tornar insuportável. Disse que já bastava. Não queria ver mais nada, só queria mesmo era sair dali. Os nomes desses lugares são, respectivamente, Tarrafal e Sachsenhausen…

Não é irónico que o campo de concentração de Sachsenhausen, na pacata cidade de Oranienburg, se situe apenas a quarenta quilómetros do parlamento alemão em Berlim? Estatisticamente falando, não foi tão mortífero como outros campos mais conhecidos, como Treblinka ou Birkenau, e mais não exemplifico para não encher este texto com muitos nomes tenebrosos. Ainda assim, cumpriu a função para a qual foi feito, o extermínio de quem era e pensava de modo diferente… O museu contra o esquecimento, visitável no local, menciona milhares de mortos e de executados, o modo brutal como os prisioneiros eram tratados e as experiências médicas a que foram sujeitos. Esclarece ainda que as infames câmaras de gás foram aí inventadas e que o sistema, depois de constatada a sua eficácia, foi depois replicado nos outros campos. Como um mal nunca vem só, após a guerra, Sachsenhausen foi usado pelos soviéticos para lidar, não só com prisioneiros da guerra terminada, mas também com presos políticos oriundos das áreas de influência dos novos algozes. O mal não tem cor.

À entrada, o portão de ferro era para mim apenas uma referência histórica à infinita maldade humana, com as famosas palavras “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta). À saída, depois da visita que ficou a meio, o portão era já um instrumento de insuportável tortura psicológica. Para muitos dos que por lá foram obrigados a passar, não foi o trabalho, mas a morte os libertou. 

Sachsenhausen (ⒸPaulo Santos)

Por coincidência, ou talvez não, a Colónia Penal do Tarrafal, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, foi criada pelo governo português exactamente no mesmo ano da construção Sachsenhausen, em 1936. Ano fatídico, que trouxe também a guerra civil em Espanha, pois andava tudo ligado. Ao contrário do campo alemão, o campo português estava mais longe do centro político da nação. Mais afastado, só se fosse em Timor… Correspondendo ao comportamento de quem o mandou construir, menos rígido, menos exaltado, mais mole, tipicamente mediterrânico, o Tarrafal não era um campo de extermínio. Mas também não era apenas um armazém de presos políticos. Os muros altos guarnecidos de abundante arame farpado, as camaratas insalubres e o pessoal “afectuoso”, estava lá tudo o que era necessário para vergar os  mais atrevidos contra quem mandava no país e suas colónias. E se morressem com o “tratamento”, tanto melhor, eram espinhos a menos a desafiar as elites governantes no jardim à beira-mar plantado. A má alimentação, o paludismo, a falta de cuidados médicos e a opressão faziam efeito. Por isso, o Tarrafal era também chamado o “Campo da morte lenta”, como se descreve nos painéis que se  encontram no local, e muito bem, pois é importante evitar o esquecimento. 

A saída, ainda com as descrições frescas da leitura, passei no portão e olhei para o fosso a toda a volta. Imaginei-me lá no tempo em que o campo funcionava e, novamente, um enjoo tomou conta de mim…

Tarrafal (ⒸPaulo Santos)

Deixe um comentário