NÃO É PEIXE

Ao vê-lo, meditei no nome com que os antigos o baptizaram, uma dupla mentira. Melhor dizendo, e como certamente não tinham intenção de ludibriar ninguém, apenas descrever um ser nunca antes visto, usando a terminologia rudimentar da época, será mais acertado dizer que é um duplo engano. 

Sim, vive no ambiente aquático e nada, mas não é peixe. Sim, é herbívoro e roliço, do tamanho de um bovino, mas não é boi. Falo do peixe-boi, nem peixe nem boi. 

Os marinheiros, vendo-os de longe, imaginaram cabelos longos, seios, caras lindas, e inventaram as sereias. Compreensível, o Freud explica bem este comportamento. Outros, olhando mais de perto, ao verem o imponente buço, depressa despromoveram estes animais a gado, e usaram-nos como tal. Pachorrentos, nutritivos, fáceis de capturar, ao longo dos últimos séculos os peixes-boi dos mares tropicais e também os do rio Amazonas foram reduzidos a populações residuais. Consequentemente, estão em risco de desaparecer.

Os registos do abate em massa são esclarecedores. Em meados do século 17, durante a ocupação holandesa do Brasil,    os da terra enchiam mais de 20 navios com carne de peixe-boi, todos os anos, para ser consumida sabe-se lá onde, e como porco ou vaca. Mas foi já na primeira metade do século 20 que ocorreu a fase mais destrutiva da exploração, pois estima-se que entre 80 mil e 140 mil peixes-boi amazónicos tenham sido mortos em apenas duas décadas. Isto tudo sem contabilizar as capturas para a subsistência de algumas populações mais isoladas. A caça foi proibida mas continua até aos dias de hoje, apesar de todas as leis e das campanhas de sensibilização.

Os exemplares que eu vi faziam parte de um programa de conservação do peixe-boi da bacia do rio Amazonas. E tão necessário é, pois são muitas as ameaças que continuam a degradar os ecossistemas onde vivem os peixes-boi, desde a poluição, o turismo, as redes de pesca e as barragens, até ao já falado consumo da sua carne. 

Trichechus inunguis (ⒸPaulo Santos)

O programa acima mencionado estava a decorrer no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazónia em Manaus, onde estudavam, entre outros aspectos da sua biologia, as condições para a reprodução em cativeiro de vacas-marinhas ou manatins, como também são conhecidos. Pude observá-los num grande tanque, quer de cima, quando se alimentavam à superfície, quer através de uma janela lateral, que permitia vê-los quando mergulhavam. E foi aí que pude fotografar os seus formidáveis bigodes.

Curiosamente, a ciência do início do século 19 agrupou as várias espécies de peixe-boi na Ordem dos Sirénios. Desenrolando a palavra, lá encontramos novamente a alusão às sereias, numa ressonância da cultura popular antiga.

Voltemos aos antigos, e temos de lhes desculpar a imprecisão nomenclatural. Ainda hoje, com escolaridade obrigatória, livros e televisão, há quem chame peixes aos golfinhos e mamíferos aos pinguins…

Trichechus inunguis, peixe-boi-da-amazónia (ⒸPaulo Santos)

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