Na Serra da Leba, na Serra de Valongo, na Serra Amarela e no meio da cidade, quatro Amigos do Homem pregaram-se-me na memória. Tiveram sortes distintas. Melhor dizendo, tiveram sortes de cão, que é uma expressão com sentidos opostos em função do contexto. E aqui também.
O primeiro morreu instantaneamente. Nem sei que cor tinha, está invisível nesta memória muito antiga, pouco contaminada por juízos, valores ou sentimentos mais recentes. Sei que o acidente deixou as crianças assustadas, não pelo cão mas pela travagem brusca e pelo estrondo do embate. Lembro a aflição do motorista, por não ter conseguido evitar o acidente e ter colocado os ocupantes em risco. E frustração pela imobilização da viatura, toda a frente amolgada, radiador rebentado, a água espalhada na estrada. O grande cão tinha atravessado subitamente a via e a velha 4L, embalada na descida da Serra da Leba, no sul de Angola, não escapou à colisão. Não nos deixaram ver o que sobrou do pobre e abandonado animal, e ali ficámos até nos virem buscar.
O segundo foi menos dramático. Diria mesmo cómico. Para acentuar a cena, tratou-se de um incidente com implicações internacionais. Nas imediações da Serra Amarela, seguíamos em serviço para mostrar a um investigador norueguês umas instalações que ele diria se serviriam ou não para criar salmões. Ao volante ia o chefe, conhecido pelo curioso hábito de fazer as rectas em 3ª velocidade, engrenando a 4ª antes da curva, imediatamente antes de ser necessário reduzir. Idiossincrasias… A seu lado ia a directora, criticando tudo a preceito como era seu hábito. No banco de trás ia o estrangeiro e nós dois, arrebanhados para ajudar pois conhecíamos bem a zona. Estranho aos costumes da terra, já tinha trocado inquisitivos olhares connosco a propósito da condução peculiar, mas a expressão de espanto que exibiu no episódio caricato com o canídeo foi impagável. O animal assustou-se e correu ao longo da estrada fugindo da barulhenta carrinha, uma velha 504. O chefe abrandou muito, mas não parou. O cão, ainda mais assustado, estacou subitamente e encolheu-se no meio da via. O chefe, surpreendido, passou-lhe por cima em câmara lenta. À medida que o carro avançava, ouviu-se a cabeça bater nas chapas de baixo. Virámo-nos para trás e vimos o cão a fugir velozmente por um atalho. “He’s ok!”, exclamou o visitante aliviado. O atropelado tinha escapado apenas com três dores de cabeça, uma para cada pancada. Parece que ainda ouço: Tum! Caím! Tum! Caím! Tum! Caím! Assim mesmo, três vezes. Lembrei-me que o sortudo poderia chamar-se Molière. Ah! E a tal criação de peixes não se concretizou…
Em passeio de fim de semana pela na Serra de Valongo, aconteceu-nos o terceiro canídeo. Ou então, dito de outra forma, esta talvez mais adequada, acontecemos-lhe. Sim, nós ao bichinho. Passando ao lado de uma casa rural, numa estreita estrada municipal, veio de lá um cachorro ainda desconhecedor dos perigos da vida e correu para o carro ladrando. Não parou a tempo e bateu contra a roda da velha Dyane. Depois do latido, o gemido sonoro. Parámos logo, a condutora em pranto. O cachorro estava deitado a lamber a pata. Talvez estivesse partida, abanava de modo estranho quando um rapazito pegou nele ao colo. De quem é? A minha pergunta foi para todos os presentes mas só respondeu o adulto: ”Não é de ninguém, anda por aí.” Queríamos ajudar, levar ao veterinário. ”Não é preciso, não tem dono.” Apertando com as crianças uma delas descaíu-se, o sabujo era mesmo o dono. Confrontado, já não negou. “Mais valia ter morrido! Agora não serve para nada.” Largou a afirmação como quem cospe, sabendo que a culpa do acidente era dele, mas estúpido demais para aceitar ajuda. Deu trabalho explicar que a fractura se curava com tratamento adequado e que, em animais muito novos, os ossos recuperam muito bem. Por fim, lá se convenceu que deveria cuidar do cãozito e ficar com ele. Se não nos enganou, talvez tenhamos evitado mais um abandono. Tinha a vida toda pela frente.
O quarto, foi negro em tudo… Era ainda noite cerrada quando iniciámos viagem. Decorridos cem metros, saíu por uma porta às escuras uma sombra preta e atravessou o alcatrão sem nos dar tempo de reagir. Depois da travagem brusca, já com pranto aflito a meu lado, saí do Discovery e verifiquei o que o som deixava antever. Entalado no grande pneu, o pequeno cão parecia ter terminado os seus dias. Recuei dois metros para que o dono pudesse pegar no seu animal. Respirava, mas estava inanimado, se é que se pode dizer assim de um cão. Depois de troca de palavras tristes, oferecemos ajuda ao desanimado homem, já estava a pensar de que forma daria a notícia à mulher, muito apegada ao bichinho de apartamento.
Seguimos viagem, estivemos dois ou três dias fora, não me lembro onde, sempre ensombrados pelo acidente. Soubemos por telefone que tinha sido operado, mas estava em mau estado. Um dia depois do nosso regresso voltámos a falar com o dono e ficámos a saber o que era expectável: o ferido não resistira mais e tinha morrido nessa manhã.