PONTO ESCURO EM FUNDO CLARO

Nada se via na neve branca até surgir um ponto escuro ao longe. À medida que se aproximava o ponto ganhou pernas, cabeça e braços, movimentando-se ritmadamente. Depois ficaram nítidos os óculos escuros, os skis, as luvas e os bastões. Só muito de perto pude constatar que era entradote, aparentando 80 ou mais, cara muito enrugada, barbas de pai-natal, costas curvadas e movimentos pouco firmes. Apesar disso, chegava de longe num esforço considerável, que não é pera-doce fazer aquele passeio pela neve. Devia ser hábito.

Fiquei a observá-lo até passar por mim, dirigindo-se para a plataforma do funicular que estava poucas dezenas de metros mais abaixo. Depois do exercício, regressaria a casa para o merecido repouso. Matutei um pouco sobre o que muitos da sua idade preferem fazer, matar o tempo com entorpecentes programas das manhãs e das tardes, sentados em frente a um aparelho de um só sentido comunicacional. Senti-me identificado com o velho montanhista desconhecido.   

Estávamos bem alto nos Alpes suíços, umas merecidas férias familiares. Depois de alguns dias na região decidimos o que queríamos ver a seguir. Primeiro o comboio até Zermatt, onde não se chega de carro, uma excelente opção de gestão do turismo. Recuperadas as carruagens antigas, bancos de madeira envernizada e vidros gravados, nem damos conta que são pouco cómodas, a viagem curta e a paisagem prendiam a atenção.  

Depois, a subida até ao observatório de Gornergrat, um percurso íngreme de meia hora. A máquina faz uma subida panorâmica passando em túneis, pelo meio da floresta de coníferas e com vista para cenários de alta montanha dignos de calendário “grande formato” que é coisa caída em desuso. A partir de um dado momento surge um pico majestoso, é o Matterhorn. Todas as adjectivações são justas face à beleza cénica da grande montanha prismática, parcialmente coberta de neve em pleno verão.

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Glaciar Gorner. CC0cc1Paulo Santos

No fundo do vale o glaciar serpenteava, uma sucessão de estrias longitudinais alternadas, claras e escuras. Uma visão especial, pois nunca tinha presenciado este espectáculo da natureza. Em julho de 2001, ainda se mostrava volumoso, não sei que estado apresentará agora.

Regressados a Zermatt, demos um passeio agradável pela vila de arquitectura típica, tão arrumadinha e florida. Até tinha um rebanho de ovelhas para os turistas verem, devia passar de tantas em tantos horas, logo seguido da equipa de limpeza para remover os excrementos. Fomos surpreendidos por portugueses fardados nos passeios  dos restaurantes. Convidavam os clientes a entrar em alemão, francês e inglês, mas conversavam de porta para porta em luso vernacular, logo moderado quando os saudámos em portuense. Riram-se e trocamos as palavras de circunstância típicas entre conterrâneos fora do seu país.

Antes de regressar a Sion, observámos também as montras das lojas. Os preços eram condizentes com a altitude, tudo preparado para os turistas bem abonados. Lembro ainda que se vendiam para aliviar o reumatismo umas latinhas vistosas com gordura de marmota, um pequeno roedor de alta montanha. É o equivalente deles à nossa banha de cobra, e ainda hoje é de uso legal…   

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O Matterhorn. CC0cc1Paulo Santos

  

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