Os dois adultos afastaram-se receosos e pudémos aproximar-nos do seu covil, devo confessar que não de modo totalmente confiante. Era um abrigo tosco com 2 lobinhos, bolinhas de pêlo fofo, olhos cinzentos e patas robustas. “Podem pegar neles, se quiserem.“ Quisémos. Ganiam levemente e cheiravam mal, mas mesmo muito mal, a carne em decomposição. Nunca esqueci tamanho fedor, que reconheci depois sempre que com ele me cruzei.
Em 1980, tivemos a ideia de ir para o Gerês estudar a fauna, o projecto “mata do Cabril” já abordado no texto “VULTOS NA FLORESTA“. Como éramos muito verdes, inexperientes em trabalho de campo, procurámos apoio. Não havendo na Faculdade de Ciências do Porto, naquela época, quem nos proporcionasse a necessária orientação, fomos a Lisboa falar com um técnico de vida selvagem da então Direcção-Geral das Florestas que nos tinham sugerido, e que aceitou ajudar-nos. No dia combinado por telefone chegámos cedo ao seu local de trabalho, tínhamos ido no primeiro comboio da manhã do Porto para a capital. Recebeu-nos no corredor, atrapalhado. Esquecera-se: “Estou com muito pressa, tenho de ir a Mafra ver os lobos.” Mas emendou, ao ver as expressões desconsoladas: “Querem vir? Podemos falar no carro.” Fomos, era uma oportunidade a não desperdiçar. E eu sem uma máquina fotográfica! Arrependi-me de não ter sido previdente.
A visita ao cercado dos lobos foi emocionante. Afinal nunca tínhamos visto estes icónicos animais fora de uma jaula. As instalações que vimos eram provisórias e aí estavam recolhidos em cercados alguns lobos mutilados ou em recuperação. Com origem em acidentes ou em encontros com caçadores, não podiam ser libertados. Não sobreviveriam.
Estivemos lá dentro apenas alguns minutos. Enquanto isso, o casal de lobos demonstrou muita agitação. A coberto dos arbustos, rondavam inquietos e foram verificar o estado dos filhotes mal saímos do terreno vedado.
Sim, como combinado, durante a deslocação o especialista em fauna selvagem aconselhou-nos sobre metodologias de detecção de fauna de maior dimensão, como raposas ou corços, e métodos de captura e marcação de micromamíferos, como musaranhos ou leirões, informações muito úteis para o que iríamos fazer no Gerês. Mas foi a primeira visão de lobos fora do zoo que ficou bem gravada na memória.
O cheiro a lobo voltei a senti-lo, não no Gerês, onde até vimos vários restos de bovinos atacados pelo predador, mas anos mais tarde na Serra da Peneda. Foi em carcaças frescas de vacas e cavalos abatidos pela alcateia do Vez, e nos excrementos deixados ao longo dos trilhos por ela percorridos, e que calcorreei com amigos durante muitos anos.