NA TENDA

A árvore morta, de tronco negro, revelava-se em forte contraste com a neblina brilhante do sol ainda baixo. Encaixado nos ramos, um ninho muito grande, cegonha ainda deitada. Mas este ninho não era como os outros, destacava-se por estar pouco acima da água, bem afastado da margem. Não conhecia outro igual.

A ave levantou-se e bateu repetidamente o bico em saudação, acordando os pardais que dormiam. Os ninhos da pardalada, construídos dentro do emaranhado de ramos onde a cegonha morava, estavam bem protegidos. Em contrapartida, a senhoria era ruidosa quanto baste.

Próximo da margem, numa outra árvore morta e já tombada, oito manchas negras, corvos-marinhos que descansavam ainda, cabeças protegidas com as asas. Mais afastados, nadavam já os elegantes mergulhões-de-crista.

ninho almofala
O ninho na lagoa de Almofala. CC0cc1Paulo Santos

Acordar cedo, abrir o fecho da tenda lentamente, sem barulho, e ficar no quentinho do saco-cama a observar a cena descrita… Era fantástico, pelo menos para gente de gostos como os nossos. Acampar em Almofala, junto à lagoa, era acontecimento muito antecipado. Chegar ao fim da tarde, percorrer o curto caminho rural até à ruína de adobes pertinho da água, montar a tenda e aproveitar as cores do sol poente reflectidas na lagoa. Seguia-se o jantar, umas vezes no local outras a dez minutos de carro, em Figueira, e depois deitar cedo. Na árvore isolada, junto à tenda, mais de uma vez sentimos pousar um mocho. Quando lhe dava ganas de piar, não nos deixava dormir. Fomos várias vezes acampar nesse local, quando os terrenos estavam abandonados, antes de serem plantadas vinhas extensas e tudo ser vedado.

Naqueles tempos, no início dos anos 80, havia poucas cegonhas, e o ninho de Figueira de Castelo Rodrigo era famoso, atraía visitantes. Estava na torre da igreja e era atracção cuidada pelos habitantes, ao contrário do que acontecia em outros sítios onde estas aves eram malvindas. Em certas aldeias era o próprio padre, criatura comprometida com os ensinamentos de Cristo, que ordenava a remoção dos ninhos, não fosse uma das inquilinas sujar o chão ou as vestes domingueiras de algum paroquiano proeminente.

O ninho de Figueira era famoso. Mansas, habituadas ao convívio pacífico com humanos, as cegonhas deixavam-se ver de perto, mas eu gostava mais do ninho dentro da lagoa, um dos locais preferidos para acampar.

Esta memória bucólica é só uma de muitas que coleccionei em acampamentos. O hábito de usar tendas, com toda a flexibilidade que proporciona, começou em África. Desde miúdo, com a família e seus amigos, tive muitas aventuras em locais remotos de Angola, paisagens e pessoas tão diferentes, e também em baías mais ou menos próximas de cidades, que magníficas praias. Escusado serei de detalhar mais do que os principais objectivos destas saídas, o contacto próximo com a natureza selvagem e a possibilidade de experiências diferentes e pouco comuns.

Já adulto, vivendo na Europa, nas circunstâncias que referi noutro texto (Vultos na floresta) recomecei a acampar no Gerês, várias vezes por ano, fins de semana ou semanas completas, de verão e de inverno. Ao longo dos anos foram surgindo outras oportunidades para o fazer em muitos outros locais e como mais gostava, isto é, em cenários de natureza pouco transformada, longe de povoados e seus habitantes, mesmo que com menor conforto, menor segurança, e ausência de balneários e instalações sanitárias. O verdadeiro campismo selvagem. 

Foram diversos os locais onde o pude fazer, com amigos, com a família, ou mesmo sozinho. Recordo-me de alguns, certamente os relevantes, e aproveito para evidenciar os melhores, sem ordem de preferência. Foram aqueles já mencionados no Gerês, mais precisamente na Mata do Cabril (Lindoso) em três pontos distintos do velho carvalhal, ou o local que descrevi acima, junto à lagoa de Almofala, ou ainda  junto à capela de Stº André, no topo das escarpas do rio Águeda, afluente do Douro na fronteira, vista alargada para o rio, para o vale encaixado e para os ninhos dos grifos. Outros locais, igualmente belos, foram as margens agrestes do rio Sabor, agora inundadas, ou os lameiros em redor de Alfaiates (Sabugal) com cortinas de velhos freixos, o pedregal cheio de giestas floridas na Lageosa da Raia (também Sabugal), que perfumado mar amarelo a envolver a tenda, ou ainda a paisagem forte na Ermida de São João das Arribas (Miranda do Douro), com o rio espartilhado lá no fundo… Todos eles despertando recordações de bons momentos e mais histórias.

Recordo ainda outros pontos onde a tenda foi usada com agrado, como junto ao lago da Barragem de Vale do Rossim, no meio da serra da Estrela, na margem do ribeiro em Poço Velho (Vilar Formoso) com fresco corredor ripário, num pinhal antigo na serra do Alvão, num campo nos arredores de Mourão (Beja) com vista para um bando de grous, no miradouro de São Salvador do Mundo, que está num monte de granito com vista para o Douro, no meio das ruínas abandonadas de Vilarinho das Furnas, e também no Olival dos Frades, no topo das escarpas do rio Côa, águias e abutres voando bem perto. Aqui, de uma das vezes que lá fui, o calor acima dos 40º, quase insuportável, forçou-nos a ficar sentados na sombra de um sobreiro, várias horas em que qualquer actividade física se tornou penosa. 

De quais não me lembro agora? Não deverão ser importantes, mas são-no certamente alguns locais fora de Portugal onde armámos tendas, e deles também guardo boas recordações.

Em Espanha, menos confiante, só me lembro de acampar à  selvagem em dois locais: junto ao lago Enol (nos Picos da Europa, Astúrias, mas com permissão dos guardas do Parque) e no topo de uma arriba virada ao mar Cantábrico, perto de Ribadesella, a tenda e o carro escondidos da aldeia por um campo de milho. Manhã cedo, arrumámos as coisas rapidamente e reiniciámos a viagem, andava já gente a trabalhar nos campos. Esquecemo-nos lá de uma velha frigideira que tinha ficado de noite a escorrer a gordura.

Em parques de campismo, armámos a  barraca desde Sagres a Miranda do Douro, e em muitos outros como Lamas de Mouro, talvez o mais bonito. Também em Espanha passámos uma ou mais noites em vários parques. Nos Pirinéus, em Torla e no Valle de Bujaruelo e também no circo glaciar de Pineta, todos pertinho do Parque Nacional de Ordesa, e ainda em Esterri d’Àneu, na borda do Parque Nacional d’Aigüestortes. . Nas Astúrias, em Valle de Lago, perto de Pola de Somiedo, e em Posada de Valdeón. Mais próximo da fronteira, perto das Termas Romanas de Bande, na margem do rio Lima (Ourense) e em Monfrague, junto ao Tejo, uma zona de abundante fauna selvagem fácil de observar. Houve outros locais, mas agora não me ocorre onde. A estes juntam-se alguns em França, como duas quintas nos Alpes, e nos Pirinéus, junto a Gavarnie, e ainda nos arredores de Lourdes. Em Itália só me lembro de dois locais. Um em Ventimiglia, depois de uma curta passagem no Mónaco, e outro numa aldeia nos Alpes, nem sei qual. Sim, os parques de campismo podem ser muito úteis, mas nada se compara à aventura de um bom acampamento clandestino.

Termino voltando a África, muitos anos depois. Primeiro no Quénia e depois na Namíbia, tivemos a merecida oportunidade de voltar às tendas. Também de lona, como as antigas, mas com outro nível de sofisticação e conforto, em zonas ricas de fauna selvagem, observável mesmo sem binóculos. Tendas com vista para o Kilimanjaro, em Amboseli, ou para a interminável savana, em Masai Mara, ou ainda para o alagado do Delta do Okavango. Memorável!

DSCF0059 P. C. de Lamas de Mouro. CC0cc1Paulo Santos

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