Era perfeita, nunca tinha visto igual. As almofadas oblongas bem marcadas e os traços deixados pelas longas unhas não deixavam lugar para dúvidas. Na margem do rio Côa, ainda o sol se levantava e uma neblina suave pairava sobre a água, dei com ela em cama de areia fina, ainda húmida da noite. No meio de outras igualmente nítidas, de pequenas aves que também ali tinham passado pouco tempo antes, a grande pegada de texugo destacava-se. Fotografei-a e, com o pouco gesso que me restava, fiz o respectivo molde para usar nas aulas.
A poucos metros de distância da margem estavam as ruínas que eram a razão da nossa presença no local. Datadas do século I e posteriores, tinham sido identificadas como uma pequena “estação de serviço” do tempo de ocupação do território ibérico pelos romanos, hospedaria, cavalariças e ferraria, completadas depois com um edifício religioso medieval. Os proprietários da vinha onde se tinham encontrado os vestígios tinham decidido criar um “Museu de sítio” com o espólio das escavações entretanto efectuadas, e
encomendaram o desenvolvimento do projecto ao arqueólogo responsável pelos trabalhos em curso. Foi por este que fui contactado para colaborar e, estranhando o pedido, escutei a sua ideia. Queria abordar o património arqueológico, mas enquadrando-o no património natural da região, e também nos aspectos culturais mais recentes, terminando com uma sala dedicada ao vinho, afinal o uso do solo dominante na quinta e na região envolvente. Esta versão integrada da cultura agradou-me, e aceitei fazer uma caracterização da fauna e da flora da Quinta de Ervamoira, era esse o nome, juntando-me aos arqueólogos, técnicos de património, geólogos e outros.


Paulo SantosDurante cinco anos, de 1997 a 2001, aproveitando a semana de férias da Páscoa, levei ex-alunos meus para ajudar nos trabalhos de campo. Escolhi alguns com competências especiais para identificação das espécies, e quase todos foram úteis.
A rotina diária começava com o despertar, 6h da manhã, seguido de pequeno-almoço farto, pão de lenha, manteiga, leite, ovos, queijo, fruta e café de saco. A primeira saída para observação e inventariação de plantas e animais começava bem cedo. Implicava a formação de grupos e percorrer um dos trilhos previamente estabelecidos, a margem do Côa ou da Ribeira de Piscos, ou a vinha e os terrenos incultos, ou ainda os matos em redor. Pelas 9h, um segundo pequeno-almoço, ligeiro, e logo de seguida a segunda saída para outro percurso. Ao fim da manhã regressávamos para o almoço, ao meio dia, boa comida de aldeia acompanhada de tinto de garrafão. Era excelente, pois vinha das cubas onde se fazia o já então famoso “Duas Quintas”. Seguia-se a sesta, para descansar, dormitar, ler, compilar a informação recolhida de manhã, conversar ou usar auscultadores para ouvir música. Durava até às 16h, quando o calor abrandava, permitindo a terceira saída para mais um percurso. Depois tomava-se um merecido duche, antes do jantar. Novamente receitas e produtos caseiros, sempre às 19h30m. Ao serão, na esplanada da casa rural, depois adaptada a museu, reuniam-se todos os participantes da semana e fazia-se o balanço do dia. Aprendia-se ao ouvir sobre todas as especialidades em estudo. Depois contavam-se histórias, cada um partilhando o que queria. A memória prodigiosa do arqueólogo-chefe do projecto destacava-se, peripécias de reis, abades e exploradores, segredos de rainhas, detalhes da nossa História… Por vezes, o dia terminava com um passeio antes de dormir, para detectar espécies noctívagas.
O museu foi inaugurado no final de 1997, mas continuou a ser melhorado nos anos subsequentes. Na sala de entrada destacam-se ainda hoje as nossas fotografias de flores e ervas dignas de menção, aves, uma borboleta, um sardão e outros, acompanhadas dos textos explicativos que elaborámos sobre o ecossistema. E também sobre os benefícios dele obtidos desde há muito pelas populações humanas da região.
No último ano, para além do relatório final sobre a biodiversidade, escrevemos também um conjunto de recomendações, essencialmente de boas práticas na exploração da quinta, para maximizar a fauna e a flora autóctones, e para reduzir o efeito negativo dos produtos agroquímicos. Infelizmente, a empresa proprietária da quinta tinha sido entretanto adquirida por uma multinacional pouco sensível ao assunto, e nada foi feito.
Não posso terminar sem referir que, com o início da construção da barragem do Côa, em 1994, a Quinta de Ervamoira correu o risco de ser engolida pela albufeira projectada, juntamente com outras e com o ecossistema do fundo do vale. A descoberta das gravuras rupestres do Vale do Côa, nos limites da quinta, teve considerável impacto científico internacional. No país, foi seguida de grande movimentação social contestando a construção da barragem, levando a que, em 1996, o governo se decidisse pela paragem definitiva das obras da barragem. Se tivessem avançado, nem vale, nem quinta, nem museu, nem aquelas boas experiências de vida. E as gravuras, tal como se dizia e cantava na altura, não sabiam nadar.
Para terminar, voltemos às nossas tarefas. Sim, foi combinado de início que o trabalho a desenvolver seria pro bono, mas acabei por receber muito em troca. Tive grande prazer em colaborar, em aprender, em gozar da natureza numa zona riquíssima, dos serões culturais, da boa comida e bebida, ou dos banhos no rio (nos anos mais quentes) tudo em ambiente de amizade. Também gratificante, foi contribuir para a formação de alunos em contexto de trabalho real, a oportunidade de levar comigo os filhos num dos anos, e ainda o reconhecimento dos gestores da quinta, que se traduziu em várias ofertas natalícias de excelentes vinhos. Dito de maneira muito simplista, foram sucessivas férias de Páscoa muito bem passadas.