Acordei com a alegre cavaqueira que se desenvolvia no banco ao lado. Tinha dormitado por alguns minutos, mas as vozes eram mais pesadas que o meu cansaço. No ar pairava um forte cheiro que vinha, tal como a conversa, das peixeiras que regressavam a casa após o encerramento do mercado.
Até aos anos 80 do século passado, a praça de Lisboa, espaço que se situa ao lado do edifício neoclássico onde hoje é a Reitoria da Universidade do Porto, tinha bancas de venda, não só de peixe e hortícolas, mas também de roupa, calçado e música. Situado junto ao terminal de autocarros, o mercado tinha muitos clientes e não era possível não dar por ele pela música muito alta e roufenha que soava nas bancas respectivas. Na altura, as cassetes vendiam-se como pipocas e os êxitos do momento repetiam-se infindavelmente “óóóndestão teus olhos negros”, paredes meias com as aulas a decorrer nesse edifício, onde então funcionava a Faculdade de Ciências.
A carreira 76 ligava a praça de Lisboa e a praia de Leça da Palmeira, passando por Matosinhos, e todos os dias levava várias peixeiras de volta a casa. Muito faladoras, durante o percurso trocavam ideias ou decisões tomadas do que seria o jantar, entre apreciações sobre as freguesas do dia, ou simplesmente questões familiares. Não se coibiam também de emitir juízos e imprecações, usando o típico e abundante vernáculo que provocava sorrisos escondidos na audiência, mas tudo muito alto. E quando digo alto quero dizer muito alto mesmo, até o condutor ficava a par de toda a conversa.
Mas o que que fazia eu ali? No terceiro ano da licenciatura em Biologia comecei a dar aulas em colégios, um part-time muito útil para aliviar as despesas familiares com a minha educação, e para me dar margem para outros gastos como cinema, livros, rolos para fotografia e outras coisas simples. No Colégio Ellen Key, dei aulas durante dois anos, com contrato. Pagavam bem. Nos outros, trabalhei apenas durante alguns meses para substituir professores que faltavam, e não havia contrato, mas sempre me pagaram todas as horas. Um desses colégios ficava em Leça e, quando terminavam as minhas aulas na faculdade, duas vezes por semana lá ia eu ensinar jovens e adultos, aulas das seis da tarde até às nove ou dez da noite. Só depois jantava qualquer coisa. No dia seguinte tinha de estar na faculdade às oito da manhã, e este ritmo originava algum cansaço, responsável pelo adormecimento no autocarro.
A carreira 76 já não existe mas deixou-me memórias de um tempo que não foi fácil, e também de boas gargalhadas para dentro. Voltaria a fazer tudo o que fiz na altura.