Quatro resistentes à mesa, uma mão com o garfo e outra a segurar o prato, para este não fugir mesa fora. O copo a tombar e rolar. O barulho ensurdecedor que chegou da cozinha assinalou a queda de uma pilha de louça, tudo a esmigalhar-se no chão sobrepôs-se momentaneamente ao forte ruído que chega do exterior. Dentro não era fácil estar, o balanço muito forte impedia quase tudo, mas lá fora era mesmo impossível permanecer. Sim, ondas de 8 metros e vento a condizer intimidam qualquer um, mesmo os mais tarimbados, e aqui a expressão náutica faz todo o sentido. Quase toda a gente a bordo do arrastão de investigação “Noruega” está fechada nos camarotes, com o estômago do avesso ou simplesmente com medo. E não é caso para menos. Dada a sua configuração, e de acordo com os marinheiros que nele trabalham, este pequeno navio de 47 metros oscila muito mais do que os outros. Tal efeito limita o trabalho com mar agitado, quanto mais com uma tempestade que provoca tais condições de desconforto, transformando a embarcação numa montanha-russa em câmara lenta. Mas a cavalo dado não se olha o dente e este “cavalo” tinha sido oferecido em 1978 ao Instituto Nacional das Pescas pelo governo norueguês, daí o nome de baptismo. A chegada deste instrumento de investigação para estudos de oceanografia, e especialmente dos recursos pesqueiros, foi importante para um país de economia débil e com tradição de pesca, nem sempre explorada da melhor maneira.
O importante agora é esclarecer o que fazia eu a bordo. A uma parte dos peixes capturados pela rede de arrasto eu tinha de os contar, medir, pesar, recolher o estômago e, finalmente, abrir a cabeça e encontrar e guardar os pequenos ossos do ouvido, os otólitos, estruturas usadas para avaliar a idade. Por vezes, fazia também recolha de sangue para análise. E tudo isto para que? Uma fase importante da minha carreira profissional esteve ligada à biologia pesqueira e, por isso, lidei repetidamente com o respectivo instituto de investigação. Assim, a convite de um investigador dessa instituição, embarquei primeiro no “Mestre Costeiro”, em 1990. Depois, após muita insistência, o meu pedido para recolher dados para a minha investigação foi autorizado e embarquei no ”Noruega” em 3 anos consecutivos, 1990, 91 e 92, por períodos de duas semanas. Foi num destes cruzeiros que a aventura tempestuosa decorreu. Por esta e por outras, pode dizer-se que a minha procura de informação sobre o Lepidorhombus boscii, assim se chama o peixe que na época prendia a minha atenção, foi tudo menos monótona. O nome latino da espécie, numa interpretação muito livre, indica um peixe agradável mas deitado de lado, característica comum a todos os peixes parecidos com linguados e solhas. O nome comum deste saboroso peixe é muito banal, areeiro-de-quatro-manchas. Areeiro por habitar fundos arenosos, e de-quatro-manchas porque as tem mesmo.
Mas voltemos ao mau tempo no mar, o motivo desta memória. Por razões de trabalho, embarquei nos anos seguintes em vários navios de investigação e, para não variar, encontrei muitas vezes o mar agitado. Em 1993, no Mar do Norte com o navio holandês “Tridens”, e em 2000, também no Mar do Norte a bordo do “Pelagia”, também holandês, metade dos dias de trabalho foram passados debaixo de vento forte e chuva, o normal para a região. Já o cruzeiro efectuado entre a Flórida e as Bahamas, em 2003, a bordo do “F.G. Walton Smith” da Universidade de Miami (sim, no outro lado do Atlântico as universidades têm navios de investigação…) choveu e ventou, mas nada de especial. Voltando a águas nacionais, fiz muitas saídas de um só dia para efectuar diferentes tipos de trabalho, sempre em pequenas embarcações, mas nada se compara a um grande navio de investigação.
O que de bom ficou das muitas horas passadas em alto mar foram aprendizagens úteis, camaradagem, paisagens magníficas e contacto com muitos organismos marinhos que, de outra forma, nunca teria visto ou tocado. Muitos deles ficaram captados nas minhas imagens fotográficas.