Desde que ouvi falar deles eu dizia muitas vezes: eles andam aí no meio de nós. À medida que fui lendo as descobertas da genética moderna, que revelam a presença de genes dos Neandertais nas populações humanas actuais, fui confirmando o que sentia e afirmava por brincadeira.
O dicionário diz:
ne·an·der·tal |niãdèrtál|
(Neandertal, topónimo [região alemã])
substantivo masculino
[Antropologia] Primata antropóide do paleolítico médio, que surgiu na Europa e na Ásia, caracterizado por grande volume cerebral. = HOMEM DE NEANDERTAL
Posto isto, não é sobre os antropóides do paleolítico nem sobre genética que quero escrever agora. É mesmo sobre os antropóides actuais e a forma como condicionam a vida de quem não se sente seu igual…
Efetivamente, ainda hoje podemos encontrar por todo o lado comportamentos dignos dos verdadeiros primitivos. E é um exemplo disto que vos trago do fundo da memória.
Nos anos 90 do século passado, o FAPAS (Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens) colocou a funcionar um viveiro no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Destinado a produção de árvores e arbustos autóctones, era uma comparticipação para o esforço de recuperação da floresta do parque. As nossas intervenções e acções em defesa da natureza tinham ganho a confiança da Secretaria de Estado do Ambiente. Após negociação, cedeu-nos por tempo indeterminado a gestão de um viveiro há muito tempo abandonado pelos serviços florestais. Fazia ainda parte do acordo que parte das árvores produzidas seriam compradas pela direcção do parque para os seus programas de reflorestação, garantindo nós que as sementes seriam recolhidas na região.
Ao longo de meia dúzia de anos conseguimos recuperar as instalações, que estavam completamente degradadas. Com a ajuda de trabalho voluntário e financiamento de um projecto da União Europeia, comprou-se um sistema de rega, foram arranjados os dormitórios, a cozinha e os balneários, foram reparados telhados e vedações e, afinal o que se faz num viveiro, produzimos muitos pés de carvalho, azereiro, sobreiro, azevinho, castanheiro, bordo, pilriteiro, bétula e outros. Eram principalmente para acções de florestação, mas sobreiros e castanheiros eram sobretudo para oferecer aos habitantes do parque que nos visitavam e para as juntas de freguesia plantarem nos seus terrenos e baldios.
O viveiro ocupava-nos muitos fins de semana, mas era um gosto. No outono, recolher as sementes um pouco por todo o lado, no parque. No inverno, semear. Na primavera e verão ver as plantas a germinar e a crescer. Aí desenvolvemos inúmeras acções de educação ambiental e recebemos muitos grupos escolares, desde o básico ao universitário. Tivemos também frequentes visitas do director do parque, bem como de jornalistas e outras entidades.
Passados uns anos a operação não teve o seguimento desejado. O parque deixou de fazer plantações com o seu pessoal e começou a encomendar a tarefa a empresas privadas, que compravam as árvores em viveiros comerciais. O nosso balanço financeiro ficou negativo.
Quando o viveiro foi assaltado e vandalizado por elementos da população local, roubando o motor de rega, quebrando os vidros e colocando as vacas a pastar nas plantas em crescimento, sentimo-nos derrotados e decidimos devolvê-lo. Tínhamos produzido entre 700 mil e 800 mil plantas, um contributo notável.
A pergunta essencial é: qual a razão da população para não querer o viveiro? Então não tinham todas as árvores que quisessem a custo zero? Então o electricista, o canalizador, o tractorista e ainda algumas mondadeiras não tinham ali trabalho frequente e com boa remuneração? Não lucravam os cafés e as mercearias?
A explicação principal está na história da formação do parque nacional e da criação do viveiro no Lindoso. O primeiro foi formado com a oposição das populações e o segundo foi instalado em terrenos da aldeia, com muita contestação e a coberto das espingardas da Guarda Nacional Republicana. Muitos habitantes, ressentidos, tinham um ódio intestino ao parque e seus directores, e a todos os que a eles estivessem ligados, como nós.
Ao longo dos anos em que dinamizámos o viveiro tivemos sempre contrariedades e ameaças de alguns membros da aldeia. Um dia fomos a uma reunião com os elementos da junta de freguesia de Lindoso explicar todos os benefícios que o viveiro dava à terra. Saímos in extremis, não levámos uma tareia por pouco. Queriam que o terreno fosse abandonado. Perguntámos nós: para quê? “Porque é nosso e queremos por lá as vacas a pastar!” Tinham toda a serra para os bovinos mas queriam mais um hectare…
Convencidos da importância que o clero tem na região, fomos falar com o padre. Pedimos-lhe para benzer as plantações, falar do viveiro na missa, e apaziguar os mais exaltados. Recusou…
O padre, tal como aqueles cavernícolas que nos queriam bater, devia ter características de neandertal muito acima da média.