Estou na água. Em redor, a paisagem é esmagadora. Em cada margem levantam-se escarpas a pique com mais de 200 metros de altura. O quase silêncio é intenso, transcendental, apenas o marulhar, um suave pio, a respiração compassada. Lá em cima, bem alto no céu, os abutres a voar. Na água esverdeada uma carpa salta de vez em quando e borboletas e libélulas cruzam o rio. Nas paredes lisas verticais há líquenes amarelos e nas fissuras da rocha alguns fetos secos e flores coloridas de pequena dimensão, dando um enquadramento bucólico. Não há vestígios evidentes de actividade humana.
Remo a minha canoa de índio na albufeira de Miranda do Douro. Imponentes, de um lado a escarpa portuguesa, do outro a espanhola, uma ao sol, a outra na sombra. São poucos quilómetros desde a entrada na água, no cais junto ao paredão da barragem, até este cenário magnífico que esta pequena memória não consegue descrever de forma justa.
Já aqui tinha estado com os amigos que, em 1999, me iniciaram nestas aventuras aquáticas. Já tinha percorrido com eles, várias vezes, todo o curso internacional do Rio Douro e mais algumas albufeiras para jusante e também a montante, já em Espanha, mas esta era a primeira vez que fazia esta etapa a solo. Ao contrário das vezes anteriores, em que a conversa entre amigos, a camaradagem, as aventuras na água, a preparação e consumo das refeições eram os principais objectivos, esta vez era propícia a introspecção, e também observação e fruição da natureza de uma forma mais próxima.
Agosto, noite passada no parque de campismo, tomar pequeno-almoço reforçado, estacionar o Discovery junto à água, desamarrar e descarregar a canoa, 40 kg às costas, besuntar a pele com protector solar, guardar a máquina fotográfica, o telemóvel e o almoço dentro de um saco impermeável, pendurar o GPS no colete… Enfim, todo um ritual bem sabido e seguir o protocolo de segurança.
O passeio não demora muitas horas nem é fisicamente muito exigente. Depois, ficar isolado numa das raras sombras na margem, empoleirado num grande calhau, canoa bem amarrada, como umas tiras de presunto acompanhadas de bom pão e uma bebida a condizer. No silêncio ouço chapinhar. Espreito e dois olhos vivos perguntam-me “que fazes aqui?”. Aponto a máquina instintivamente e disparo sem enquadrar. Em seguida a lontra mergulha e desaparece. Sorrio.


Paulo SantosTermino a refeição fazendo um café. Bebê-lo lentamente, usufruir da paisagem em volta, ouvir o canto das cigarras que acordaram com o calor… Experiência inolvidável.
Depois é um caminho de volta e o que mais custa é voltar a colocar a canoa em cima do carro. Parece que aumentou de peso, mas é só o cansaço que, como efeito secundário, dará uma noite de um sono só.
De mais uma aventura ficou esta memória temporária, agora digital, e as fotografias que, também elas digitais, um dia irão igualmente desaparecer.
Chegados a esta altura sinto que é necessário desfazer a ideia de paisagem não humanizada que incuti, enganadoramente, no início do texto. Afinal, apesar de estarmos num cenário lindíssimo, trata-se de uma albufeira que, como as restantes, afecta os ecossistemas aquáticos e terrestres que atinge. Os ninhos nas escarpas são alvo de caçadores menos civilizados, a fauna em geral é fortemente afectada por actividades rurais pouco lícitas e as plantas, de vez em quando, ardem com as queimadas. A água está poluída dos efluentes das povoações e com agroquímicos. A situação só não é pior devido à baixa densidade populacional e por esta região estar longe dos grandes interesses económicos…
Apesar de todos os problemas detectados, a biodiversidade neste território é notável e merece ser melhor protegida e usufruída. Sendo pouco eficaz, tendo muitos erros da gestão e falta de fiscalização, o PNDI, Parque Natural do Douro Internacional, é fundamental para preservar o que sobra destes ecossistemas.

Albufeira de Miranda, rio Douro. 
Paulo Santos