WILLYS

Aprendi a conduzir aos 13 anos num velho jipe da segunda guerra mundial. Dito desta forma pomposa parece importante, fora do comum, uma raridade mesmo. O facto é que não tenho a certeza se o pequeno Willys verde teria mesmo andando na guerra. Seria uma das muitas unidades usadas oferecidas pelo Canadá ou pelos Estados Unidos da América no final da guerra, quando entrámos na NATO? Ou teria sido um modelo comprado pelo governo português no final dos anos 40, ou mesmo no início dos anos 50 do século passado? Muitos deles, em fim de vida, eram vendidos  a particulares porque já não serviam o exército.

Era uma máquina infernal. Motor de 2200 cc a gasolina, 60 cavalos, caixa com 3 velocidades e redutoras, pesando cerca de uma tonelada apenas, passava por todo o lado como nenhum outro. O pára-brisas rebatível, quando pousado no capo, dava-lhe um ar leve, desportivo, alegre e despreocupado.

Mas não estou aqui para falar de história ou de mecânica. Nessa altura eu ia muitas vezes de viagem com o meu pai, principalmente aos fins de semana. Íamos a terras da região abastecer de medicamentos as lojas de aldeia e as vendas das propriedades agrícolas isoladas. Aí, o patrão era também  responsável pelos cuidados básicos de saúde da população em redor, fazendo curativos, vendendo pomadas, analgésicos ou mesmo injectando antibióticos em casos mais graves. Para além do sentimento humanitário de alguns, que nem cobravam pelo serviço de enfermagem improvisado, e de razões comerciais para outros, era do interesse de todos eles, não só manter os trabalhadores saudáveis, com manter uma posição de imprescindibilidade e ascendente sobre a comunidade. Era importante competir eficazmente com os curandeiros, que tantas vezes apregoavam o afastamento do seu rebanho perdido relativamente ao colono, fosse ele de que cor fosse.

Chegou uma altura em que meu pai pensou que eu poderia ser mais útil do que apenas para carregar e descarregar a nossa carrinha Datsun 1200 de caixa aberta. Se bem pensou melhor o decidiu. Um dia disse isso mesmo:  hoje vais aprender a conduzir.

A aprendizagem foi feita num local simbólico. A dois quilómetros da vila havia um monumento a assinalar o centro geodésico de Angola.  Uma caixa de cimento, dizia-se com instrumentação encerrada no interior, uma rotunda com uma estátua do Cristo, e uma “estrada” recta até lá,  poeirenta quanto baste. Primeiro aprendi a controlar a direção, o que não era fácil. A folga era grande e era impossível não andar aos esses. Felizmente os despistes não tinham consequências pois não havia absolutamente nada ao lado da estrada. Nas sessões seguintes aprendi a usar a caixa de velocidades. Também não foi fácil pois era muito dura e quase que tinha de “comer um bife” para mudar de primeira para segunda.  Depois de dois ou três engasgansos, o controle da embraiagem chegou naturalmente, bem como o do travão. Ao fim de poucos treinos estava apto. Afinal, quem conduz um vetusto Willys conduz qualquer coisa.

Indo de viagem, longas estradas desconfortáveis de terra batida, paisagens intermináveis quase sem gente, comecei a substituí-lo na condução. Só nas primeiras horas a seguir a cada cliente. A razão era simples mas pode não ser óbvia, o melhor é explicar. Principalmente nos casos em que íamos a zonas mais isoladas, o patrão da casa não queria falar das compras logo de seguida. Queria saber das novidades que não vinham nas ondas curtas do rádio e, sobretudo, queria conversar com pessoas que não aquelas, poucas, de todos os dias. Por isso, mal chegávamos, saltavam logo as cervejas para os homens e refrigerante para mim, que tinha cara de puto. Recusar era falta de educação e negócio estragado. Depois seguia-se o abastecimento, igualmente regado. À hora de ir embora a condução etilizada não era recomendável, e daí a minha utilidade acrescida.

A situação mudou no ano seguinte. Com os pelos do buço a aparecer, deixaram de me dar refrigerante e passei a acompanhar os adultos com a minha cervejita. Só uma!

A carta de condução, a legal, só a obtive aos vinte e tal anos de idade, já me tinha esquecido de quase tudo.

One thought on “WILLYS

Deixe uma resposta para Eduardo Teiga Cancelar resposta