No final dos 70 e início dos anos 80 era frequentador assíduo do 5º andar do nº 37, na Rua do Bolhão, com mais meia dúzia de maduros e outros tantos imaturos. Depois das aulas ou depois do jantar, aqui se testavam a personalidade, a resiliência psicológica, a memória e capacidades intelectuais, se melhorava a auto-estima e se arrasava o ego, mas também se fazia convívio e se falava um pouco de tudo. Foi aqui que um dia um bruto entrou e disse, como se tivesse muita piada: hoje temos Carneiro assado. Referia-se à morte do então primeiro-ministro na queda e subsequente incêndio da aeronave onde viajava. Mas é melhor explicar. Tratava-se da secção de xadrez do Futebol Clube do Porto, uma pequena sala onde se aprendia e onde se jogavam campeonatos internos ou com outras equipas da região e do restante país. Jogadores de todos os níveis, fracos, médios e excelentes, pobres ou de bolsa recheada, estudantes, patrões ou empregados, introvertidos ou expansivos, educadinhos ou praticantes do mais duro vernáculo portuense, todos unidos por este jogo exigente, mas também recompensador.
Mas vamos ao que mais importa deste episódio. As várias modalidades desportivas recebiam apoios diversos de muitas pessoas, principalmente de pequenos e grandes industriais do norte do país. Um dia, um deles apareceu na sede do clube dizendo que queria fazer um donativo. Perguntaram-lhe para que secção gostaria de o fazer. Como ele não sabia, e na maior das boas vontades, quis saber qual a secção que recebia menos apoios. Claro está que lhe disseram: a secção de xadrez. Então está bem, disse o benemérito, na semana seguinte podiam contar com uma oferta da fábrica dele.
E se bem o disse melhor o cumpriu. Na tal semana o coordenador da secção apareceu com dois grandes sacos e um sorriso nos bigodes: pessoal, aqui temos o que nos foi oferecido por um apoiante do clube, material desportivo para melhor praticarmos a nossa modalidade. Abriu os sacos e lá dentro estavam duas dúzias de sapatilhas.
Rimos muito à custa do coitado que não fazia ideia não ser necessário calçado desportivo para se jogar xadrez, mas todos quiseram um par. As sapatilhas eram mesmo boas, e as minhas duraram vários anos. Até joguei xadrez com elas.
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