Agosto de 1975. Finalmente vergados, iniciamos a fuga da guerra. Percorremos mil quilómetros de estradas perigosas, bandidos e barreiras militares múltiplas, até que as circunstâncias nos fizeram chegar a Moçâmedes. A seguir, foram semanas à espera de transporte seguro para sair do país. O barco para Luanda só chegaria em outubro, um pequeno cargueiro que nos levou acumulados no convés, mais as outras trezentas pessoas. Mas essa é outra história.
À espera em Moçâmedes, aproveita-se a calma aparente e a relativa segurança para alguns passeios pelos arredores, e um deles foi ao deserto.
No Namibe, areias, avestruzes e ágatas, tantas e tão lindas. Depois, vimos a maravilhosa planta, mais precisamente a Welwitschia mirabilis. Sim, maravilhosa e em homenagem ao austríaco Friedrich Welwitsch, o primeiro botânico que a viu, estava ele no deserto do Sul de Angola, certamente não muito longe do sítio onde também vi a minha primeira. A cada nova espécie é atribuído pela comunidade científica um nome latino, para não originar confusões derivadas dos nomes vernáculos. Friedrich queria que esse baptismo fosse uma adaptação de “tumboa”, designação pela qual a planta era conhecida no local onde a tinha observado. Afinal, foi o seu nome que foi escolhido pelos seus pares.


Paulo SantosA planta é considerada um parente dos pinheiros, muito estranho e muito afastado, e com a características únicas. Tem uma raiz longa, tronco muito atarracado e apenas duas folhas que se enrolam e fendem, aparentando por isso serem muitas. Curiosamente, é a única planta que nunca perde as folhas, isto é, desde a germinação até a morte são sempre as mesmas, em crescimento contínuo. Nas welwitschias mais velhas, com mais de mil anos de idade, cada folha pode ter 3 ou 4 metros de comprimento. Da mesma forma que outras plantas do deserto, adaptou-se a viver em condições muito difíceis, nomeadamente escassez de água e forte amplitude térmica. Depende, portanto, para além das longas raízes, do nevoeiro que se condensa nas folhas para obter a humidade de que necessita. As plantas masculinas podem estar muito distantes das plantas femininas e, sem insectos polinizadores, a reprodução estaria muito dificultada, pelo que os atrai com néctar açucarado.
Algumas décadas depois tive oportunidade de as ver novamente numa visita à Namíbia, desde as pequeninas às majestosas. Vi também as covas deixadas pela recolha ilegal das welwitschias. Apesar de serem estritamente protegidas, estas plantas continuam a ser alvo de tráfico para países onde compradores sem escrúpulos não se importam dos estragos que ficam nos locais de origem.
Esta memória é sobre a primeira vez que vi uma welwitschia, mas é também sobre a resiliência dos seres vivos aos condicionalismos que formatam a vida de cada um, plantas e animais, humanos incluídos.

Welwitschia mirabilis. 
Paulo Santos