O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. … Continue reading SEMEADURAS INFANTIS
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SUSTO ESTRONDOSO
Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças! Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que … Continue reading SUSTO ESTRONDOSO
DOIS CRIMES NA NOITE
O que sucedeu naquela madrugada foi estranho, no momento em que ocorreu. E foi quase incompreensível para mim, que teria dez ou onze anos, quando soube a razão dos gritos. A explicação só surgiu na manhã seguinte, ao escutar as conversas em tom grave dos adultos. Nessa noite, ficámos a dormir em casa da família … Continue reading DOIS CRIMES NA NOITE
EMBOSCADA DE GAITAS
Como quem faz uma emboscada, os três rapazolas aguardam atrás de um eucalipto. Do outro lado da rua chegam indicações de que a cerimónia está para breve, e fazemos a confirmação nos nossos relógios de pulso. À hora certa, o corneteiro inicia o toque de hastear a bandeira e dois dos nossos sacam das gaitas … Continue reading EMBOSCADA DE GAITAS
O HIPPIE DESTERRADO E A PIDE
Parece que estou a vê-lo, bem-falante, pesadão e melenas, sempre de sandálias e calções. Só não cabia bem no estereótipo pois usava camisa branca de marca. Tinha sido enviado pelos pais para a casa de um tio na vila do interior, longe das distrações de Luanda. As razões do castigo, se alguma vez as soube, … Continue reading O HIPPIE DESTERRADO E A PIDE
FRUTA DO TEMPO PASSADO
O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam … Continue reading FRUTA DO TEMPO PASSADO
PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO
Metida a mão dentro da cabaça e sentindo os grãos, o ladrão encheu a mão e puxou, mas o punho fechado não coube na estreita abertura. Entretanto assomou o guarda e o assustado assaltante puxou com mais força a mão entalada que não saiu, tentou fugir mas não resultou pois a cabaça estava bem amarrada … Continue reading PERIGOSA CABAÇA CHEIA DE MILHO
O CÁGADO CONTORCIONISTA
Zangada e cerrando os dentes, a mãe vinha com o cágado na mão. Quando se aproximou, ouvi-lhe o protesto sem destinatário: “Quem é que ela julga que quer enganar!” A vizinha tinha chamado a nossa mãe, e ela acercou-se da vedação que separava os quintais, estranhando o contacto por parte de quem quase nunca o … Continue reading O CÁGADO CONTORCIONISTA
A TIFA
No meio da nuvem branca e malcheirosa, os vultos de farda parda faziam uma estranha coreografia. Uns, desenrolando da traseira do veículo um tubo flexível com um longo espalhador metálico, introduziam fumo nos bueiros e demais orifícios das ruas e passeios. Outros, com uma barulhenta máquina portátil, lançavam fumo nas habitações e casas comerciais. Apareciam … Continue reading A TIFA
A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda … Continue reading A ORELHA DO LEITÃO DE NATAL
NO LOBITO
No início dos anos setenta fomos viver junto ao mar, no Lobito, por transferência do pai, que era funcionário da Companhia do Caminho de Ferro de Benguela. Anos felizes para um rapazinho de onze, doze anos. A mudança trouxe novos hábitos, novas caras e excelente peixe fresco, por comparação ao que se comia no interior, … Continue reading NO LOBITO
VETERINÁRIO GARBOSO
O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às … Continue reading VETERINÁRIO GARBOSO
O BÚFALO
O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática. Quando comecei a brincar com um … Continue reading O BÚFALO
MAIOR QUE A MINHA MÃO
Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas. Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que … Continue reading MAIOR QUE A MINHA MÃO
FRAGMENTOS DO PLANETA
A improvisada prateleira, uma tábua tosca apoiada em dois tijolos, exibia a preciosa colecção. Recolhidos um pouco por todo o lado, os fragmentos do planeta exibiam cores, tamanhos e texturas variadas, uns eram brilhantes e outros não. As peças mais bonitas, as minhas preferidas, eram estruturas cristalinas, quase puras, algumas tão transparentes que pareciam feitas … Continue reading FRAGMENTOS DO PLANETA
A PONTE ENTRANÇADA
Nunca tal coisa tinha visto, e não mais voltei a ver. A esburacada estrada de terra batida tinha chegado ao rio, e, para o atravessar, lá estava a ponte. Não era uma ponte como as outras que abundavam na região, feitas de troncos e tábuas grossas, ou então de cimento, as melhores. Não, aquela parecia … Continue reading A PONTE ENTRANÇADA