Apesar dos frísios bovinos não terem fixado em mim os esbugalhados olhos, absortos que estavam no ruminanço, senti-me momentaneamente solidário para com eles. Aceito que digam ser uma manifestação desajustada da minha parte e, ao reler a frase, tendo a concordar. Todavia, não me pareceu assim tão exagerada quando ela me surgiu a meio da noite, lembrando-me e refletindo sobre o que senti naquele momento.
Depois desta introdução, devo explicar as circunstâncias que motivaram tal sentimento. Nos anos noventa, fiz uma deslocação profissional a um instituto de investigação localizado numa ilha do país que hoje designamos de Países Baixos. Claro que aproveitei a oportunidade para conhecer a Natureza dali, diferente da que via por cá.
Um domingo, dia livre, fiz um grande passeio à beira-mar e pelos campos rendilhados por linhas de água traçadas a régua e esquadro. Queria observar as aves comuns da região. E vi muitas: cisnes e patos nos canais e valas de drenagem, gansos nas pastagens, limícolas nas dunas e praias, e passarinhos nos canaviais. Foi então que aconteceu o percalço desagradável que deu o mote para esta memória.
Avançando por um campo de ervas, tentei aproximar-me de um bando de “não me lembros” para os fotografar. O solo estava encharcado e as sapatilhas rapidamente se encheram de lama. Mais uma dúzia de passos e vi-me junto a uma vedação de arames com plaquinhas de tantos em tantos metros que mostravam o desenho de um raio, como tinha visto em todos os campos onde havia gado. Olhei para a cerca elétrica, avaliei o obstáculo e pensei que não seria difícil de ultrapassar. Com cuidado, pousei o saco do material fotográfico a fazer peso no arame de cima, pressionei-o para ficar mais baixo e alcei uma perna para o outro lado. Até aí tudo bem. Pousei o pé num tufo herbáceo e dei impulso para passar a outra perna. Não resultou. O pé que estava no tufo afundou numa mistura de barro e água e não deu o impulso esperado. Pelo contrário, encaixei os fundilhos no arame e senti o contato da pior maneira. Fechado o circuito entre o solo molhado e o fio elétrico, levei um forte choque. Apanhado de surpresa, saltei para trás e fiquei a resmungar comigo por não ter antecipado tal desfecho.
As vacas continuaram a ruminar plácidamente, alheias ao meu embaraço. Pelo contrário, eu pensei nelas, sabendo que tinham vivido sempre entre vedações elétricas, e que tinham aprendido a evitá-las à custa de muitos choques. Nos flancos, quando pastavam muito próximas dos fios e, sobretudo, na cabeça ao tentarem abocanhar a erva maior e mais apetitosa que cresce na base das vedações. Nesse momento, não pude evitar uma boa dose de solidariedade para com os bovinos cercados.