O tempo passava e eu não escondia a desapontamento por não ver aparecer o que tanto aguardava, pois a expectativa criada pelos progenitores era grande. Tinha escavado a terra do quintal, depositado os grãos nos buracos, cobrindo-os depois e juntado água até encharcar tudo. Depois fui observando o crescimento, ansiando pelos frutos que não surgiam. Que não, diziam-me, não era como eu esperava, tinha que ser paciente. O facto é que as plantas rasteiras cresceram e os aguardados frutos não apareceram, minando a minha confiança no resultado final. Não sei quanto tempo ansiei, nem se reguei ou se apalpei. O certo é que, chegado o momento e por indicação paternal, arranquei o que restava das plantas, já com as folhas a murchar. Para surpresa minha, lá estavam ensarilhados nas raízes os frutos gordos e ásperos que esperava. Afinal o desfecho foi bom, e comi alguns imediatamente, depois de os descascar. Assim mesmo, tal como estavam, crus, pois não suportava mais demoras. A preparação usual, no forno, arrastaria a prova para um futuro indefinido. O sabor foi uma surpresa, tão diferente do que conhecia dos grãos tostados. Só muito mais tarde percebi o fenómeno operado por aquela planta de origem sul-americana. Os raminhos com flores polinizadas descem e enterram-se no solo, onde os frutos se desenvolvem. Numa originalidade que esta planta partilha com poucas outras espécies, os amendoins (ou jinguba, nome que era usado em Angola) pois é deles que falo, só ficam à vista quando desenterramos as coriáceas vagens.
Alguns episódios da nossa vida de criança permanecem na memória quase toda a vida, mesmo que a rica tapeçaria dos acontecimentos, necessariamente mais complexa, fique reduzida a meros fiapos. É o caso que vos relatei acima.
O outro episódio de infância que tenho para vos contar cai igualmente na categoria de atividade agrícola. Neste caso, muito mais simples do que o anterior devido ao esquecimento dos detalhes, também escavei o solo e nele depositei as sementes. Também observei o crescimento e vi as plantas ficarem mais altas do que eu, num ápice. No que respeita ao resto da história, tenho que fazer uma assumpção baseada na lógica, porque não encontrei mais nada na minha memória. Certamente que reguei os pés esguios e vi com satisfação o aparecimento das maçarocas, reconhecíveis desde o início da sua formação, sem surpresas. Devemos tê-las comido cozidas em água com uma pitada de sal e barradas com margarina, pois era desse modo que a mãe as fazia, ou assadas em brasas, como outros faziam. Este resquício de lembrança, de tão incompleta, será o resultado de uma experiência menos emocionante do que a relatada mais acima, como explicam as novas teorias sobre o tema.
A terceira e última memória que tenho para partilhar agora é ainda mais vestigial. Como tantas outras vezes, por estímulo dos pais, coloquei um feijão num pedaço de algodão húmido e observei a germinação, dia após dia, o aparecimento dos primeiros sinais de vida, as folhas a crescerem e os cotilédones a mirrar. Repeti a “magia” mais duas ou três vezes, em ocasiões distintas, mas não sei o destino que dei às pequenas plantas, se as coloquei na terra, se completaram um ciclo de vida, se as deixei secar…
Estas e outras vivências experimentais foram importantes na formação da pessoa que fui ao longo da vida adulta, moldando a minha perspectiva sobre o funcionamento do mundo e definindo alguns dos valores pelos quais ainda hoje me guio, apoiados na ciência e, sempre que possível, no bom senso.