AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES

Sim, eu sei que um título desta natureza, “AFOGAMENTO DE MNEMOSIS NO LETES” parece arrogantemente erudito e algo críptico, pretensioso, presunçoso e outros adjetivos terminados em “oso”. Contudo, não poderão dizer que é preguiçoso pois pensei muito para escrever um que fosse sucinto, ajustado ao conteúdo, e ainda algo misterioso, apelativo à leitura.

Vem este desarrazoado a propósito de mais um ano findo desde que iniciei a publicação de memórias. Para ser rigoroso, já lá vão sete anos, mais do que esperava. Não vou repetir-me, embora esta característica seja comum quando a velhice se instala,  e dizer o que escrevi no ano passado. Vou, isso sim, abordar outra característica que vem com a idade, o esquecimento.

Contar-vos estas histórias, peripécias, reflexões e maravilhamentos de uma vida cheia tem sido um prazer. Contudo, em busca de muitas das que ainda não vos falei, mas que estão em lista de espera, sinto hoje maior dificuldade em aceder aos registos que se incrustaram em mim, e apercebo-me que faltam memórias, pois estão ocultas ou desaparecidas, aparentemente sem retorno. Usando uma imagem simples, imagine-se um tabuleiro de xadrez de contornos e dimensões enormes e indefinidas onde as casas vazias, como se fosse num jogo real, vão substituindo as outras, pouco a pouco, à medida que nos aproximamos do xeque-mate. 

Não faço deste desvanecimento natural uma crise, ou motivo para preocupação, apenas sinto um certo desamparo. A verdade é que sentia conforto na fiabilidade dos meus registos cerebrais, no acesso imediato e incondicional a cada pedaço de mim, a cada momento vivido, no reconhecimento de tantas músicas aos primeiros acordes, na rápida associação dos rostos a idéias, livros, pinturas, filmes e nomes, e vice-versa, na correcta identificação de aves e outros seres vivos, na designação de ruas ou elaboração mental de trajectos, e em  tantos outros processos dependentes da memória.

Apesar disto, nunca senti que tivesse grande memória, comparativamente aos que me rodeavam, alguns deles com muito mais facilidade no uso deste recurso. Por outro lado, sempre me senti mais dotado na memória relacional e na percepção da “big picture”, da visão geral das situações, uma vantagem na identificação dos problemas e na obtenção de soluções, ou simplesmente na  avaliação de cada momento. Não fica claro? Muitas pessoas, assim que identificam uma solução para um problema ou explicação para uma questão, satisfazem-se com ela e ignoram os factos que a contradizem. Nunca gostei da explicação única ou mais óbvia. E, por vezes, os que me rodeiam deixam escapar a informação disponível. Imaginem um grupo que se dirige para uma conferência e, já dentro do edifício, alguém pergunta onde fica o auditório. Como ninguém sabe eu respondo: ao fundo à esquerda, já vi dois sinais. 

Regresso agora ao início, onde abri a porta para a deusa da memória se afogar no rio do esquecimento. Tal visão não teria ocorrido aos gregos da antiguidade mas, após alguma pesquisa para saber se seria uma originalidade, fiquei a saber que foi abordada por autores mais recentes. O facto não subtrai mérito à minha imaginação, mas vamos ao essencial. Sabemos que a memória nos define, que vivemos em função do que retemos, do que esquecemos, do que aprendemos e das vivências mais sentidas, para além do código com o qual vimos ao mundo. Se encararmos a possibilidade daquela visão incómoda, o acto de a própria deusa da Memória se perder, de se afogar no Esquecimento, estaremos perante a aniquilação total da história e do conhecimento das sociedades, humanas e não só. Felizmente, nem Mnemosis nem Letes existem fora da imaginação e a única perda é a de cada um de nós, que ficamos sem identidade, a ritmos e gradações distintas. É a perda da essência do ser, da vida com sentido. Aqui chegados, impõe-se uma firme constatação. O facto de estar a escrever estas linhas assegura-me que ainda não molhei mais que os joelhos no Letes.

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