Quando iniciei colaboração com holandeses, estava longe de imaginar que viria a consolidar a imagem que tinha deles, vinda da literatura juvenil: a sua índole de flibusteiros, piratas, bucaneiros, corsários e outros adjetivos menos abonatórios. A história que nos ensinaram na escola também não era favorável aos que tentaram substituir-nos em Angola, São Tomé ou no Brasil, no século XVII, na sequência do domínio Filipino. Não o conseguiram, mas Portugal foi obrigado a pagar-lhes uma indemnização de muitas toneladas de ouro, e ceder Ceilão e as Molucas. Apetece dizer, como se faz em algumas culturas, “se não foste tu foi o teu pai”… Sei que esta generalização é abusiva, mas o sentimento de quem foi roubado será uma atenuante para a racionalidade comprometida.
Vamos por partes. Nos anos iniciais da década de 1990, estava eu a fazer pela vida, tentando seguir a carreira universitária. A meio de um doutoramento com pouca orientação, isolado, sem fazer parte de uma equipa, senti que me faltava contato com outras dinâmicas de investigação. Já não me lembro como cheguei ao contacto com o NIOZ, um prestigiado centro de investigação holandês, e solicitei um estágio no grupo que estudava linguados e solhas. Recebi luz verde, combinei o plano de trabalho, assegurei o financiamento da deslocação com uma bolsa e fui quatro semanas para lá, em julho de 92. O Centro era um espanto, com tudo o que é necessário para fazer investigação de topo. Desde os laboratórios e equipamentos do melhor, aos cientistas de topo, aos funcionários com formação, ao ancoradouro e navios, e uma ala separada para visitantes, alunos de doutoramento e estagiários. Até tinha um aerogerador só para alimentar as instalações.
Com o laboratório à disposição, esforcei-me para obter resultados e fazia relatórios diários com os valores obtidos. Era um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair, todos os dias. Aos sábados e domingos passeava, a pé, de bicicleta ou de autocarro. Aproveitei para conhecer a ilha onde estava (Texel), com trinta quilómetros de uma ponta à outra, as suas aldeias, as ventosas praias, as zonas protegidas, e tive a sorte de ser convidado por um dos funcionários que ia visitar a família, para ir com ele e aproveitar a viagem. Foi assim que cruzei o grande dique que divide o Zuiderzee. No final do estágio não atingi tudo o que pretendia, criar pontes firmes de trabalho colaborativo. Descobri que a investigação já tinha sido efectuada por eles. O meu trabalho nunca serviria para publicar. Ainda assim fiquei agradecido. Tinha aprendido muito, tinha recolhido informações importantes para a minha tese (deixaram-me fazer uma busca numa base de dados científica, à qual não havia acesso na UP) tinha conhecido outras terras e mais nada.
Um ano depois, recebi de um técnico simpático de lá um convite para participar num cruzeiro de investigação, organizado em conjunto pelo instituto de investigação das pescas holandês e o NIOZ. Era apenas para mão de obra, mas fui para aprender. E gostei, pelo equipamento, pelo objetivo do estudo e pelas condições de trabalho, tudo melhor do que eu conhecia por cá.
Algum tempo depois, duas ex-alunas vieram pedir-me ajuda. Tendo terminado a licenciatura, queriam prosseguir estudos fora do país. Apresentei várias possibilidades, laboratórios onde eu tinha bons contactos, em Espanha, França e Holanda. Escolheram o NIOZ, e tratei dos pedidos. Aceitaram um estágio não remunerado de meio ano, findo o qual foram ambas contratadas para estágios com pagamento. O prémio pelo bom desempenho motivou o convite deles para avançarem ambas para doutoramento sem necessidade de fazerem mestrado. Seriam orientadas por um investigador do NIOZ e eu seria co-orientador. Resolvidas as burocracias de inscrição na universidade do Porto como estudantes de doutoramento no estrangeiro, estava convencido do bom resultado que a colaboração internacional traria à carreira delas e à minha. Entretanto, foram persuadidas a mudar para uma universidade de lá, com promessas de emprego. Assim aconteceu e perdi-as, bem como a coautoria dos trabalhos publicados. Foi trapaça, e perda de tempo, pelo menos no caso de uma delas, a quem apoiei nas metodologias e na interpretação de resultados. Deveria ter sido mais astuto, mas encarei o revés como natural, já que a maior parte da responsabilidade era deles, assim como o plano e o financiamento. Anos mais tarde, ela pediu-me colaboração para um estudo que estava a coordenar. Disse que era compensação pela injustiça, e, dessa vez, o meu nome já ficou entre os co-autores do trabalho.
Pouco tempo depois, outra aluna terminou o mestrado sob minha orientação. Com o plano que elaborei em conjunto com os holandeses, ela ganhou uma bolsa de doutoramento. Precavi-me, colocando a maioria dos trabalhos cá, com pequenos períodos no NIOZ. No primeiro ano, acompanhei-a nos trabalhos de campo exigentes, e providenciei para que algumas estudantes ajudassem nos trabalhos. Melhorei o laboratório com verbas que obtive em serviços prestados a empresas e autarquias, e recebi uma rede holandesa muito eficiente nas amostragens. Tudo corria pelo melhor.
Volvido um ano, outra aluna minha quis prosseguir os estudos e não hesitei, elaborando a proposta de trabalho para o concurso a bolsa de doutoramento com a mesma equipe holandesa. Ela ganhou. Finalmente, eu estava a conseguir o que pretendia, construir um grupo de investigação sólido e conectado Internacionalmente. Foi sol de pouca dura, e não deveria ter colocado todos os ovos no cesto do NIOZ.
Passado um ano começaram os problemas. As reuniões com a primeira orientanda não conduziam a lado nenhum, os dados e a respectiva análise nunca apareciam, e, quando o co- orientador holandês veio cá, surpreendentemente, condescendeu com o desleixo, assegurando que as coisas iriam mudar. Deveria ter desconfiado. Meses depois, ela veio dizer-me que o melhor para ela seria mudar de universidade. Eu tinha sido ingénuo, pensando que o facto de termos programado o desenvolvimento dos trabalhos em Portugal seria suficiente para impedir tal desfecho. A lisura de ambos deixou muito a desejar, obviamente conluiados nas minhas costas. E o roubo neerlandês não ficou por aí, pois a segunda aluna de doutoramento veio, pouco tempo depois, dizer que não lhe tinham deixado outra opção senão mudar também, ou terminaria a orientação e apoio do NIOZ e o seu projeto não poderia prosseguir. Não tive sorte. Com elas desapareceram também os quatro estudantes de mestrado que eu tinha recrutado para as ajudar, e que estava planeado que fossem continuar no grupo, primeiro com investigação para mestrado e depois para doutoramento.
Em pouco tempo, o laboratório ficou quase vazio e eu sem orientações, sem grupo de trabalho e sem um número indeterminado de publicações que dele resultariam, e para o que eu tinha planeado e investido tanto. Com um mínimo de decência por parte delas (não dos piratas) participei na elaboração de um artigo de cada uma, mas não tive o nome associado aos outros que saíram dos respectivos doutoramentos.
Depois da catástrofe, prossegui esforços para refazer um grupo de trabalho científico, tentando agregar mais elementos aos estudantes de mestrado que me restavam, mas, das várias candidaturas a bolsas de doutoramento apenas duas tiveram sucesso e as outras não, apesar dos co-orientadores propostos serem de topo. Também os projectos submetidos a financiamento em que cuja elaboração participei, integrado em robustas equipes de várias universidades, apesar de obterem classificação de “Excelente” não foram dotados com verbas. Os contratos de prestação de serviços a empresas e autarquias, apesar de serem rentáveis, não foram impulsos para investigação. Em compensação, a rede de contatos de que acabei por fazer parte, que incluía antigos alunos meus, investigadores dos centros onde estavam, e ainda outros académicos que fui conhecendo, tudo em colaboração, permitiu produção científica que me fazia falta. Ironia do destino, as alunas desertoras também foram incluídas em alguns desses trabalhos, assim como um dos piratas, pois faziam parte das redes deles e investigavam assuntos semelhantes.
Resumindo o que é importante, eu fui nabo. Ao invés de tentar fazer um grupo de raiz, deveria ter-me ligado a um já existente, mesmo que o tema não fosse totalmente coincidente com o que aspirava a fazer. Poderia ter integrado o grupo do meu co-orientador logo de início, beneficiando da sinergia entre um bom instituto de investigação com as universidades de Vigo, Oviedo e Santiago. Teria feito um percurso académico diferente, com mais publicações, mais participação em projetos e uma progressão maior no grau académico.
As decisões que tomamos ao longo da vida têm impactos mais ou menos pronunciados, e podem ser moduladas pelas sortes e azares que nos vão calhando. No cômputo final, talvez o facto de ter percorrido uma via científica menos intensa tenha aberto espaço para ter sido melhor professor.