Como se fosse uma metamorfose, libertando o corpo da velha casca que o espartilhava, mudar de toca significou uma melhoria na nossa qualidade de vida. Deixar o ninho onde tínhamos passado a etapa inicial do casamento, onde tínhamos feito o melhor que sabíamos nos primeiros anos dos filhos, e ainda onde tínhamos inventado tantos bons serões com os amigos não foi nada fácil, mas foi um alívio. Apesar das modificações que lhe fizémos, o pequeno apartamento, tão importante no início da vida familiar, já não cumpria as nossas necessidades e a vizinhança dava muitos problemas.
O “pombal”, como a minha sogra tinha alcunhado o T2 no 4° piso onde vivíamos desde 1984, tinha sido adquirido pelos sogros, dando-nos uma saborosa folga financeira para iniciarmos melhor a vida em conjunto, libertos do constrangimento de prestações mensais por um empréstimo bancário do qual tantos outros não escaparam. Agradecidos, aprendemos a lição e, anos mais tarde, fizemos igual aos filhos. Adiante.
Em 1997, encontrámos à venda a toca que nos servia, uma casa de construção recente com quartos e divisões mais que suficientes, um grande quintal, boa localização e preço acessível. O dono não a vendia e baixou o preço porque os possíveis compradores não gostavam da sala, muito estreita. Verdade, mas para nós não foi obstáculo, pois as outras características eram do nosso agrado. Com a ajuda financeira dos meus sogros e cunhada, e um empréstimo bancário para o restante, demos o apartamento em troca e fechámos a compra. O segundo emprego da Anjos nos manuais escolares e o meu ordenado de professor auxiliar permitiram devolver rapidamente a ajuda informal, e o restante pagámos ao banco em quinze anos.
Com o bom augúrio do equinócio de outono, mudámos para a nova casa de uma semana para a outra. Foram incontáveis pequenas deslocações entre o apartamento e a casa nova que ficava apenas a 900 metros, contando com as curvas. Caixotes e caixotes com louças, roupas, brinquedos, livros, e outros bens foram preparados, transferidos e esvaziados. Os grandes itens de mobiliário, embrulhados em cobertores, foram transportados na mala e na grade do Discovery, e também na carrinha do sogro. Os amigos ajudaram nos mais pesados, e, pouco a pouco, tudo ficou no seu lugar.
Como um búzio que acrescenta camadas sucessivas à sua concha de modo a acomodar as transformações do corpo, também nós passámos os meses seguintes (na verdade, foram os anos que se seguiram) em acrescentos, melhorias e alterações de muita coisa na casa, adaptando-a às nossas necessidades e ao nosso gosto. O voluntarismo dos meus sogros neste processo foi fundamental e deve ser sublinhado. E a rede dos seus conhecimentos foi muito útil para podermos contratar serviços de trolha, pintor, marceneiro ou serralheiro, sem esquecer a costureira e, mais tarde, o jardineiro. Sem procurar uma linha do tempo, vou tentar fazer uma resenha das tarefas que completámos, sabendo que outras houve, mas estão desaparecidas da minha memória.
No dia em que dormimos pela primeira vez na casa nova, trouxemos de apartamento a cortina, a mangueira e o “telefone” do chuveiro e tive que os colocar no quarto de banho do rés do chão, o único que tinha banheira, porque a Anjos sentiu asco pelo material que tinha sido deixado pelo anterior proprietário, o que é compreensível. Outra operação realizada nos dias que se seguiram foi nos restantes quartos de banho, colocando os varões, espelhos com iluminação, cortinas, toalheiros, mangueiras e “telefones”. Já que estou no tema, aproveito para referir o que mais foi feito nestes espaços. A substituição dos autoclismos de plástico por peças de louça aconteceu rapidamente. Seguiu-se a colocação de alguns sanitários novos, assim como cabines de chuveiro.
Outra das primeiras tarefas foi pirilampar todas as divisões, providenciando iluminação adequada, removendo os casquilhos com lâmpadas de incandescência pendentes do tecto, cada um com um fio azul e outro castanho, e substituindo-os por candeeiros já com as novas lâmpadas economizadoras, opção dispendiosa mas a mais acertada.
Em casa portuguesa que se preze, as janelas devem impedir olhares curiosos à vida alheia. Assim, com ajuda da sogra, foram feitos cortinados novos e encomendados reposteiros. Nas janelas fixámos os varões de pinho para pendurar os tecidos e na porta-janela da sala também a sanefa, como era habitual. Mas esta não durou mais de meia dúzia de anos. À primeira oportunidade, a sanefa tradicional foi reformada compulsivamente, o varão de madeira e os panos foram substituídos por artigos novos, e suspensos em varão metálico. Nas janelas, a seu tempo, as cortinas em crochet saíram, e vieram outras de linho, ou pano mais leve.
A sala constituiu um desafio. Já sabemos que era pequena e estreita, e não foi fácil resolver o puzzle com sofás, mesa e mesinhas, cadeiras, cristaleira e outros móveis menores. Disposto o mobiliário saído do apartamento, cedo começámos a convidar os amigos para jantares e serões divertidos. No entanto, tal como sardinhas em lata, apertados à mesa, não havia conforto. Consequentemente, o sogro sugeriu mandar cortar a cristaleira, reduzindo a sua espessura (ou será profundidade?) e ganhando espaço. A solução foi provisória e só melhorou quando exilámos o móvel amputado para a cozinha do quintal. Para recuperar algum do espaço perdido com essa migração, mandámos fazer um móvel à medida para o topo da sala, e o artista cumpriu, copiando o estilo Saint-Clair do restante mobiliário. Tinha três níveis. O de baixo, com três portas, ficou para as louças. O de cima também tinha portas, envidraçadas, deixando ver o conteúdo. Quando instalei pequenas luzes no interior, a coloração da madeira, as lombadas dos livros grande formato e alguns objetos ornamentais ficaram realçados num efeito bonito. O módulo do meio tinha pequenas prateleiras à direita com as unidades de alta fidelidade, e espaço para a televisão, à esquerda. Aqui, faço um parêntesis para este aparelho, incluído no preço da casa. De dimensões generosas, ainda de cinescópio, estava conectado a uma antena tradicional, apontada ao Monte da Virgem. E também a um sintonizador, que controlava uma grande parabólica, móvel, captando centenas de canais de todo o planeta, muito melhor que a então incipiente televisão por cabo. Mas foquemo-nos novamente na sala. O conforto térmico foi melhorado com a instalação de uma salamandra e a construção de uma chaminé. Para tornar o carregamento de combustível mais fácil, fez-se uma base em tijolo rústico, e, para proteção da parede do calor intenso, mandámos revestir uma faixa de metro de largura, mais palmo menos palmo, que se estende desde a base até ao tecto, a parte de baixo com tijolos refractários e a de cima com pedaços de xisto.
Tal como os ouriços têm os corpos revestidos com estruturas defensivas também nós dotámos a casa de uma couraça. Encomendámos uma porta metálica com aro de aço e a melhor fechadura de segurança para a entrada virada à rua, uma porta de ferro para proteger a da cozinha (virada para as traseiras) e grades de ferro para conferir mais segurança nas janelas do rés-do-chão. Na grande porta-janela da sala, que abre para o quintal, instalou-se uma grade de recolher. Toda essa segurança era mais dissuasora do que real, pois qualquer meliante com muita vontade de entrar encontraria acessos nas janelas do primeiro andar…
Chegou a vez de falar do sótão, acessível por uma escada em caracol. O grande espaço disponível levou-nos a planear uma utilização intensa, com um pequeno escritório, uma área central com mesas de trabalho e de estudo, muitas prateleiras, e espaços para arrumar tralha. E sim, um bom lugar para brincar, iluminado pela grande clarabóia. Assim, tratar do chão em bruto foi a primeira tarefa, e decidimos por revestimento com tacos. Aproveitando a ideia do construtor, que deixou os canos no devido lugar, fizemos um wc de avião, minúsculo, a fazer lembrar a piada do Solnado: quase que era preciso cortar as unhas para caber lá. Depois, chegou a vez de três compartimentos pequenos e em cunha serem revestidos com folha de madeira prensada, eliminando o pó abundante que se soltava do cimento. Um quarto compartimento, com mil litros de água repartidos por dois depósitos de fibrocimento, assegurava que não houvesse interrupções no uso, mesmo estando a casa num local da cidade onde os cortes no abastecimento eram frequentes. Contudo, a pressão nos canos era tão baixa que o esquentador funcionava mal e tivemos que mandar instalar uma bomba. Outros melhoramentos do sótão foram o isolamento térmico, com colocação do forro de madeira e camada de lã de rocha, boa iluminação e cabos de telefone e de televisão. Quando adquirimos sofás novos para a sala, os velhos foram para o sótão, numa difícil subida pela estreita escada em caracol.
Segue-se o laboratório de transmutação, de alquimia, pois seria sacrilégio não referir a cozinha numa casa conhecida pela boa comida. Logo de início foi necessário mudar a posição da pia e do fogão (e, por consequência, o exaustor, o forno, o esquentador e a máquina de lavar a louça) e refazer a tubagem. Talvez por essa alteração, o escoamento sempre deu problemas. O tampo do balcão da cozinha era feio, de material plástico. Tornado inútil com as alterações introduzidas, foi substituído por outro em pedra, um bonito granito polido. Durante vários anos, a pequena mesa de tampo basculante continuou, tal como no apartamento, a ser o local das refeições regulares. Colocámos também uma pequena televisão num suporte na parede, e uma arca congeladora apoiada numa estrutura Dexion, por cima do frigorífico, mas esta incómoda solução não durou muito tempo.
Chegou a vez dos espaços exteriores, os pátios e o quintal. Começo pelo pátio da frente, o qual foi revestido a azulejos festivos. Já que aqui estamos, aproveito para referir que substituímos o portão da garagem, pesadão e de fole horizontal, por outro de correr para cima, motorizado. Também o grande portão de entrada e saída da viatura de e para a rua foi dotado de motor e a rampa no passeio foi ampliada. Os automatismos, oferta dos meus pais, permitiam que ambos os portões ficassem controlados por meio de telecomando, muito útil, especialmente em dias chuvosos.
O pátio de trás foi também azulejado, e montou-se um telheirinho de ripas, por cima do qual cresceu uma sombra perfumada de jasmim. Bastou acrescentar uma mesa e assentos rústicos e passou a ser habitual almoçar e jantar ao ar livre, nos dias de clima ameno. Quando a mesa de madeira apodreceu, já havia outra mais ao fundo do quintal e o lugar foi ocupado por um banco arco-íris feito pelo meu sogro.
Chegou a vez de falar do quintal, o atributo da casa que foi decisivo para a nossa mudança. Estreito, com pouco mais de seis metros de largura, compensado com quase trinta de comprido, tinha galinheiro ao fundo, árvores de frutos e algumas plantas ornamentais: uma cerejeira já bem grande, um diospireiro, um pessegueiro, um marmeleiro, uma estrelícia enfezada, um alecrim e um pessegueiro arbustivo de flor. O restante espaço era um mar de ervas altas. O galinheiro foi prontamente demolido e, no seu lugar, ergueu-se uma sólida construção com lavandaria, oficina e cozinha regional com forno a lenha, churrasco e lareira. A pia, feita de um pesadíssimo bloco de mármore, foi recuperada de uma montureira e o barro saibroso para isolar o forno foi recolhido num talude aberto pelas escavações no que viria a ser a A43. Anos depois, chegou o brilhante fogão a lenha, assim como o respectivo saco azul. Foi quando se fez a ampliação da cozinha, com extensão da placa de cobertura e demolição de meia parede.
O primeiro inverno na casa nova já viu a horta semeada e couves a crescer. Durante vários anos, a semeadura e o plantio foram executados pelos sogros, mas a rega, a monda e a colheita foram tarefas colectivas. Cebolas e favas deram bons resultados, couves e tomates assim-assim, mas alfaces, alhos e pimentos não gostaram do quintal. Na primavera seguinte, com a vinda do canídeo prometido às nossas crianças, uma fofura chamada Maia1, as hortaliças tiveram que ser protegidas das cavadelas intempestivas. E a vedação ficou bem, com uma bonita cerca de madeira atravessada ao meio pelo caminho de pedras2. Este, ainda incompleto nesse momento, levaria muitos mais calhaus e muitos meses até ligar as duas cozinhas.
A hortinha produziu bem até ser dispensada. Uma parte dela foi transformada em pátio calcetado, e o caminho das pedras foi levantado e substituído por um passeio mais seguro, também calcetado, chegado para o lado sul. O espaço restante foi melhorado, ficando a horta reduzida a um canteiro com cidreira, menta e hortelã, mais um par de metros com arbustos de flôr. O relvado foi resemeado e ficou novo, com rega automática, muretes ornamentais feitos com as pedras que tinham servido no caminho, um caramanchão de troncos toscos e um banquinho de granito. No início, montou-se uma tenda de lona no novo pátio, e a sombra generosa passou a albergar pequenas e grandes festas. A tenda foi transitória e acabou por ser substituída por um vão de telhas apoiado em vigas de ferro pintadas de verde musgo. Também demos outra disposição aos tanques de água, e é necessário explicar a sua função, muito mais do que mero ornamento. Quando comprámos a casa, havia uma grande floreira de pedra à entrada. Para nós, foi óbvio mudar a sua posição para o jardim. Substituímos o enchimento de terra por água, mergulhámos um vaso de rede com um nenúfar e “semeámos” um punhado de girinos recolhidos numa charca à beira de uma estrada rural. Prontamente, o tanque foi adoptado pela passarada, como bebedouro e banheira. E, após uma verdadeira metamorfose, as rãs passaram a dar mais alegria ao nosso cantinho de Natureza. Mais tarde, adquirimos outras pedras escavadas, antigos bebedouros para o gado, e foram fazer companhia ao primeiro, até termos cinco micro ecossistemas aquáticos cheios de vida.
O quintal estava separado dos contíguos por muros, um deles feito de cimento escuro, e o outro de blocos graníticos até meio, sendo a parte de cima um acrescento de quatro fiadas de feios tijolos de cimento. Resolvemos tapar os maus aspectos. O muro norte já estava coberto num extremo por um maracujeiro, e, para tapar o resto, plantámos várias trepadeiras, jasmim, madressilva e outras. O muro sul, sombrio, requeria outra solução. Por essa razão, plantámos loureiros, azevinhos, azereiros, e um teixo. Não tardou muito até coalescerem, formando uma espessa sebe, dando abrigo ao pisco e à carriça e albergando ninhos de melros. Que bom ver os juvenis sarapintados no relvado.
O texto já vai longo e ficam muitos detalhes por iluminar, uns importantes, outros de lana caprina. Mas todos eles dizem um pouco de nós, como os grandes espelhos nos roupeiros, esticadores para diversos fins, fotos nas paredes, quadros com pinturas no hall de entrada, paninhos bordados em todas as prateleiras, todas mesmo, incluindo as escondidas dentro dos armários, cacos de porcelana nos móveis e nas paredes, alguns lindíssimos como clássicos holandeses e outros no pólo oposto, a concorrer com os barros de Barcelos, os licranços e os ouriços-cacheiros, o limoeiro e outras fruteiras, a arruda e as borboletas, a canoa estacionada no tecto da garagem, ou ainda os painéis solares e os espigões anti-pombos no telhado.
Em traços simples relatei as alterações dos primeiros dez anos, um lento metamorfosear da casa. Não terminaram por aí. Uma segunda metamorfose na casa, desta vez mais rápida, profunda, indesejada, estava para chegar. Foi necessária devido à minha própria metamorfose. Outras histórias…
NOTAS
1 – Ler também FECHA A PORTA
2 – Ler também O CAMINHO DAS PEDRAS