CAÍRAM ESTRELAS, VOOU O RELÓGIO

Fomos ver as estrelas a cair e o meu relógio (e não só) voou, que é como quem diz foi-se, ou outra expressão  de semântica equivalente. Serve isto de intróito a este texto, no qual proponho fazermos uma ronda pelas minhas experiências nos tribunais e daí expor algumas perplexidades.

Começo com o caso do furto das redes de pesca. A história conta-se em poucas palavras e deu-se nos anos oitenta. Andava eu a fazer estudos de caracterização da fauna piscícola de alguns rios do Norte do país quando, um belo dia (verdade, estava mesmo bom tempo) ao chegarmos ao local onde tínhamos lançado as redes ao pôr do sol do dia anterior, constatámos terem sobrado apenas as pontas de nylon que se usam para as prender à margem. Alguém tinha cortado as amarras e removido as redes, apesar de terem uma placa com a inscrição “Universidade do Porto”. Fomos à GNR e apresentámos queixa. Dias depois, recebemos um telefonema da Guarda, dizendo que tinham encontrado o material em mau estado no quintal de um pescador da terra, irritado pela concorrência. Meses mais tarde, fui chamado a tribunal. A sessão foi humilhante para o pescador impulsivo, e o juiz queria fazer dele um caso exemplar. Perguntou-me repetidamente qual o valor da indemnização que a universidade pedia, sugerindo montante elevado, muito difícil de pagar pelo homem. Nós pedimos apenas o valor das redes furtadas, e mais nada, para espanto do justiceiro e alívio do condenado.

Outro caso foi o do aterro sanitário de Bigorne. O respectivo projecto escolheu para localização da estrutura um lugar com uma mata de vegetação nativa e atravessado por um límpido ribeiro. Outros locais nas imediações eram degradadas e mais adequados, mas interessava a alguém que a construção fosse na matinha, por causa dos valores das expropriações. Fui ao tribunal como perito dos queixosos, os habitantes da aldeia mais próxima, que queriam preservar o vale, a mata e o ribeiro. Para que se entenda o receio, eram frequentes os acidentes com a primeira geração de aterros, com consequências desastrosas nos cursos de água. Apesar dos estudos apresentados, perdemos. A influência de um certo governante (mais tarde com graves acusações de corrupção) era grande e o argumento que prevaleceu foi: “não há tempo de alterar o projecto para não perder o financiamento comunitário”1.

Outro caso deu-se por falta de um sinal de STOP. Na verdade não faltava, e ainda bem. Eu explico. Tive um banal acidente com o nosso jipe num entroncamento em que me apresentei pela direita e, portanto, com prioridade. O outro veículo, um BMW verde topo de gama, bateu-me a meio da via e ficou em mau estado. De saltos muito altos e a coxear, a condutora saiu da viatura a protestar por eu não ter parado. “Vou chamar a polícia” disse, e chamou mesmo. Depois apareceu o marido e foi também à procura do sinal de STOP, o qual, segundo ele, deveria estar ali, virado para mim. Entretanto, rosnou à mulher: “O que andas a fazer no Porto com o meu carro?” O assunto arrastou-se porque o palermão não se deu como culpado, mesmo quando as seguradoras me deram razão. Insatisfeito, o senhoreco habituado a ser obedecido processou a própria companhia de seguros por não o ter defendido. Ao longo de muitos meses fui chamado ao tribunal na qualidade de testemunha. Três vezes para ser exacto. O queixoso faltou a todas. Fui lá para nada e o  processo acabou por ser encerrado.

Outro julgamento foi no tribunal de Niza e teve como móbil a destruição de centenas de ninhos de andorinha-dos-beirais no edifício do tribunal e a colocação de redes para impedir a reconstrução. Compareci como cientista da parte queixosa, contrariando os argumentos do administrador do tribunal e também os do ministério do ambiente. O primeiro referia questões de saúde pública facilmente resolúveis (e esquecia as pombas, às quais podemos apontar os mesmos factores) e o segundo pela interpretação enviesada da lei e por negligência no acompanhamento das operações. O tribunal de Niza condenou-se a si próprio a remover os impedimentos à  nidificação das andorinhas. Vencemos2.

A única vez que fui obrigado a ir a tribunal como acusado de algo foi devido a um semáforo. Num engarrafamento, daqueles muito comuns nos anos noventa, fiquei imobilizado a meio de um cruzamento. Quando os carros da frente se moveram, retomei o andamento. Semanas depois, recebi uma multa por “… passar um semáforo vermelho”. Paguei, depois de saber que era inútil contestar. Em seguida, fui “convidado” a comparecer no julgamento, onde, segundo a missiva, se decidiria a sanção complementar, isto é, quanto tempo ficaria inibido de conduzir. A sessão foi incómoda, e o agente da PSP testemunhou que me vira passar o vermelho. Na minha vez, expliquei o que me tinha acontecido, o  mesmo que aos outros todos no engarrafamento. O  agente não se lembrava de mais ninguém. Nesse momento o juiz irritado virou-se para ele e disse que deveria lembrar-se, e completou o seu raciocínio dizendo que residia perto do cruzamento em causa e que passava por esse engarrafamento todos os dias. Perguntou-me se já tinha liquidado a multa e, face à resposta afirmativa, mandou todos para casa. Obviamente, sem mais castigo.

Neste momento, estarão a questionar-se sobre o título que dá nome a este conjunto de memórias, e qual será a sua relação com o que estou a contar-vos. Pois então chegamos ao relógio, finalmente. Era verão, anos noventa, e fomos acampar no Gerês com o objetivo de observar as Perseidas3. No dia seguinte, ou dois dias depois, já não me lembro bem, fomos à aldeia e telefonámos para casa dos meus sogros, que tinham ficado com as nossas crianças, para saber se estava tudo bem com elas. E ficámos a saber que o nosso apartamento tinha sido assaltado. De regresso ao Porto, vimos a porta de madeira com vestígios do pé-de-cabra e a fechadura arrombada. Após verificação detalhada, constatámos a falta das peças de ouro da Anjos, brincos e cordões, e também tinham voado os mealheiros das crianças e o relógio de pulso que a Anjos me tinha ofertado. Fiz a participação na esquadra, mesmo sabendo que de pouco ou nada serviria. Jamais se recuperariam os bens furtados. Meses depois, recebemos uma chamada da PSP. O relógio tinha sido recuperado,  o restante não. Contudo, a devolução não era automática e tive que esperar pela decisão judicial. Um toxicodependente apanhado a fazer uma subtracção a bens alheios ostentava  no braço um relógio dissonante do seu aspecto de sem-abrigo. Por conjugação estelar, um dos agentes envolvidos lembrou-se que havia uma queixa sobre um Omega furtado e apreendeu o aparelho. Na esquadra, usou um facalhão para sacar a tampa e comparar o número de série com o que constava na queixa. Coincidia. Meses depois, fui chamado a tribunal. Ordenaram-me que esperasse no corredor até que me dissessem para entrar. Quando chegou a minha vez, conduziram-me ao juiz e este perguntou se o relógio com o número de série X era mesmo meu. Surpreendido,  respondi que sim, pois tinha o certificado de garantia no qual constava esse número e o meu nome. E acrescentei, com entoação incrédula, que a polícia tinha fotocópia do documento. “Pode sair” disse ele. Com ganas de perguntar o que tinha ido lá fazer, sentei-me para ouvir o desenrolar do julgamento quando o magistrado ditou uma ordem desagradável, prepotente: “Tem de abandonar a sala!” Saí. Dias depois, fui levantar o relógio à esquadra. A bracelete estava gasta mas o restante estava em bom estado com excepção da cicatriz deixada pela faca. E assim acabou bem esta memória.

NOTAS 

1 – Ler também “QUEREM UM LABORATÓRIO?”

2 – Ler também “SÃO SÓ ESTES?” 

3 – As Perseidas são “estrelas cadentes”, uma chuva de meteoros assim denominada devido ao ponto do céu de onde parece provir, localizado na constelação de Perseus. 

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