Qual é a probabilidade de encontrar num modesto restaurante do outro lado do mundo alguém que conheça a nossa terra? Intuitivamente, sentimos que é baixa. Uma resposta correcta, segura, será: maior que zero.
Para esclarecer a charada, devo dizer que a família, exausta, tinha ido descansar devido à viagem muito longa, somada à caminhada da tarde a ver a cidade, com níveis de oxigénio abaixo do valor desejável. Eu tinha fome, mais premente do que o repouso, e saí do hotel. Não tive de me afastar muito para desembocar numa rua secundária com vários restaurantes. Escolhi o menos manhoso, talvez estivesse melhor iluminado ou mais limpo, e entrei. Indicaram-me uma mesa, sentei-me e arrependi-me imediatamente. Diante de mim estava um menu totalmente incompreensível. Ao contrário do que tinha visto antes em muitos restaurantes chineses, com as possíveis escolhas ilustradas por imagens mais ou menos realistas, ali não havia ajuda para quem desconhece os logogramas Han.
Tentei comunicar, sem sucesso, e preparava-me para um tiro no escuro (ou seria no pé?) quando chegou a salvação. De uma mesa afastada com quatro rostos pouco simpáticos, elevou-se uma voz no silêncio da sala, onde todos estavam atentos ao espetáculo inesperado do turista parvo. Em inglês, queria saber de onde eu vinha. De Portugal respondi, também em inglês. Sem se levantar, continuou dizendo que tinha trabalhado em Lisboa durante algum tempo, em Espanha, em França, e ali em Lassa, naquele ano. Falava para mim, mas também para a restante audiência, que continuava calada. Depois da breve introdução, perguntei o que era a comida e ele aconselhou uma das opções, dizendo que era semelhante a sopa de carne. Aceitei e pedi também uma cerveja. Passado o momento inédito, a sala regressou ao burburinho habitual.
Não tardou muito para me servirem uma grande tigela com massa, vegetais e pedaços de carne escura, talvez porco (não me lembro se me disseram ou se será uma partida da minha mente) e resolvi o problema da fome. Finda a refeição, mostrei uma nota em sinal de pedir a conta. Mais palavras que não compreendi vieram do homem que me tinha servido. Levantei-me para pedir ajuda ao meu tradutor, mas, antes de perguntar, recebi a resposta: não tinha nada a pagar. Perguntei se tinha entendido bem e ele respondeu que eu era convidado, que não podia pagar, e que a despesa era com ele, completando o discurso com um gesto de impaciência, como quem diz que não havia discussão, e que já estava ali a mais, talvez actuando para que o auditório o visse, já que mais ninguém entendia o diálogo. Restou-me agradecer, o que fiz com um aceno de cabeça e com um educado “xie-xie”, expressão que eu tinha aprendido anteriormente, e saí.
A remoer o assunto, regressei ao hotel pelo percurso mais longo, por ruas quase desertas e com iluminação mortiça. Que diferença para o bulício brilhante e diversificado da tarde. O ar frio da noite sossegou-me os pensamentos negativos. Contudo, volta e meia, a cena regressa ao consciente. Será que fui injusto com o chinês? A total ausência de expressões faciais de empatia e os gestos de desdém foram reais ou terão sido uma idiossincrasia? Ou foi apenas uma interpretação enviesada pelas diferenças culturais? Nunca saberei.