REGRESSO ÀS CENAS VHS

De tempos a tempos dá-me vontade de regressar a esse tempo. Abro a pasta e localizo os dois ficheiros de vídeo. Vejo-os um par de vezes, pois são curtinhos, um minuto cada, e delicio-me. São imagens da família, recolhidas em 1988 e 1989, com destaque para as nossas crianças. Ela, ainda bebé, no banho ou no intervalo da mudança de fralda, e ele, pouco maior, a brincar ou a comer. Em seguida, vem-me um forte impulso de os partilhar, mais uma vez, com os protagonistas das cenas.

Nesse tempo, o equipamento necessário para gravar vídeos era dispendioso, muito, mesmo. Estava fora do nosso orçamento familiar. Por esse motivo, devo explicar como foi possível fazer essas gravações. 

O meu chefe na faculdade tinha uma característica desconcertante na sua personalidade complexa. Quando se tratava de discutir sobre algum assunto, insistia até à exaustão do oponente, o qual, muitas vezes, acabava por aquiescer, vencido mas não convencido. Talvez ele tenha usado essa metodologia para obter a doação de um conjunto de aparelhos que acabaram por ser muito utilizados na universidade. Dessa vez, a “vítima” foi um alemão abastado.

O facto é que recebemos uma encomenda com uma câmara, dois gravadores VHS portáteis, duas unidades de programação e carregamento das baterias, e ainda vários cabos de conexão. Contudo, uma coisa é haver equipamento, outra coisa é saber usá-lo. Ninguém no nosso departamento sabia. Portanto, voluntariei-me para aprender e, por isso, colhi os respectivos benefícios. Levei o material para casa e estudei os manuais de instruções. Para experimentar e aprender tinha as crianças mesmo a jeito, e aproveitei a conjugação de estrelas.

As primeiras filmagens são toscas, como não podia deixar de ser, porque, mesmo sabendo as bases de iluminação, enquadramento e composição, os movimentos de câmara e o zoom não são fáceis de dominar. Também aprendi a fazer a edição, ligando os dois gravadores e escolhendo as melhores cenas, passando-as da gravação em bruto para uma cassete nova, por vezes com outra sequência, acrescentando algumas legendas, títulos e outros dados.

Munido de máquinas e do saber necessário, fiz vídeos sobre diferentes assuntos para vários colegas usarem nas aulas e até em provas académicas.  

Um quarto de século depois, mais coisa menos coisa, há muito que essa tecnologia estava obsoleta. Já nem tinha aparelho para reproduzir as gravações. Com alguma nostalgia, escolhi duas das cassetes VHS arrumadas numa caixa de cartão e mandei fazer a digitalização do seu conteúdo. Recebi dois DVD, um suporte de armazenamento de vídeos que se tinha tornado popular. Vi as imagens em família mas só eu apreciei com entusiasmo. Os DVD foram fazer companhia às cassetes, mas copiei para o computador, não os pesados ficheiros com várias horas de filmagens, mas o pequeno vídeo que vinha como bónus em cada disco, a compilação automática de cenas ao acaso, com um fundo musical mais ou menos neutro. E está revelada a origem das imagens com que iniciei esta memória.

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