“Isto é rena congelada, pois a fresca não se pode comer, está proibido.” Foi assim que me disseram, talvez a justificar a sensaboria do repasto.
Em maio de 1986, viajei até ao norte da Noruega para frequentar uma pós-graduação em Gestão da Zona Costeira e Recursos Marinhos, paga por uma bolsa de estudo europeia. Foi importante para mim, ainda muito verde, poder conversar com outros verdes e maduros de vários países, e aprender sobre temas novos. E ainda, como efeito colateral, conhecer um pouco da Escandinávia.
A primeira parte da formação decorreu em Bodø, uma pequena cidade à beira do mar. Da cidade lembro-me pouco. Estava embelezada pelos montes em volta, verdes e coroados de neve, apesar de ser quase Verão. Não é de admirar, pois está localizada acima do Círculo Polar Ártico. O parque de campismo onde nos alojaram ficava à beira do mar e tinha cabines minimalistas, mas eram confortáveis.
A segunda parte da formação foi em Svolvær, no arquipélago de Lofoten, a uma centena de quilómetros, e fomos todos no ferry que nos levaria ao destino. Não levou. O barco imobilizou-se em pleno oceano, ao meio dia em ponto, devido a uma greve dos trabalhadores do serviço público de transportes. Para desbloquear o problema e resgatar os passageiros, a empresa enviou um barco rápido. Quando digo rápido, quero dizer rápido mesmo. Já os tinha visto no cinema, daqueles que navegam sobre patins que surgem do casco quando a velocidade aumenta. Com ele, chegámos ao porto num instante, e fomos repartidos por vários alojamentos. A mim calhou-me uma pensão gerida por uma congregação cristã. E foi aí que a cena da refeição se passou.
A razão para a interdição do consumo de carne de rena recentemente abatida estava relacionada com o acidente nuclear de Chernobyl, ocorrido poucos dias antes. As nuvens radioactivas atingiram também a Escandinávia, depois de serem arrastadas pelos ventos, num percurso de mais de dois mil quilómetros. Enquanto se faziam análises, só era permitido o consumo de rena congelada antes da catástrofe. E está desvendado o mistério.
A cozinha da pensão foi ainda responsável por mais duas novas experiências. Uma delas, carne de baleia, era considerada normal na cultura do país, nesse ano em que se iniciou uma moratória à captura de cetáceos, assinada por uma grande parte dos Estados que ainda o faziam até então. Passaram quase quarenta anos, e nada mudou. Comi a carne muito escura, e não repeti. O sabor pareceu-me semelhante ao cheiro a gasóleo. A segunda experiência foi melhor. Quando me serviram um prato com peixe cozido, mal sobrava espaço para as batatas cozidas, que eram o acompanhamento em todas as refeições. Tanto à esquerda como à direita, a posta dobrava-se sobre a mesa. Não, o prato não era pequeno, a posta é que era muito grande. O peixe de onde tinha saído a gostosa fatia não pesaria menos que meia arroba. Nunca tinha comido salmão, e adorei o sabor, o aroma, a textura e a coloração.
A visita de estudo a Svolvær permitiu ver os típicos pontões de troncos com barcos de pesca acostados, empresas de secagem e exportação de bacalhau, e muitas casas tradicionais, com a cor vermelha refletida na água. Ouvimos também alguns intervenientes dessas empresas relacionadas com a pesca, sector fundamental para a economia da região.

Voltámos a Bodø para terminar a formação, e foi quando aproveitei o fim de semana para mais uma aventura. Fui a Røst, outra pequena ilha do Arquipélago das Lofoten, e que me tinha sido recomendada para observação de aves1. E vi-as, aos milhares, e tive também direito a focas. Em Røst, a pesca artesanal era a actividade principal, o meio de subsistência para a população residente, de apenas algumas centenas. As casas de madeira e as tradicionais estruturas de ripas para secar bacalhau marcavam a paisagem humana da pequena ilha.
Após o curso, fiquei no país mais uma semana, já em junho, e fiz uma grande volta. Devido à influência do meu chefe na universidade, recebi um acréscimo à bolsa das mãos do Adido Cultural da nossa embaixada, e foi ele quem me ajudou a organizar o périplo. Visitei um laboratório em Tromsø, bem a norte, mas pouco vi da cidade, que me pareceu escura, pois a meteorologia não esteve de feição. Os passeios e as bermas das ruas com neve enlameada também não ajudaram. Desci em seguida para Trondheim, onde fiquei alojado no parque de campismo, numa cabana de madeira rodeada de árvores, com as montanhas em fundo, tudo bem encaixado no cenário belíssimo. Visitei uma grande produção de salmões, em jaulas flutuantes no fiorde, e onde usavam tecnologia inovadora. No entanto, nessa semana, estavam impotentes para travar a morte de milhares de peixes, asfixiados por milhões de medusas que tinham surgido de surpresa. Foi um sinal da poluição causada pela aquacultura, e que levou à elaboração de regulamentação mais apertada, poucos anos depois do problema.
A primeira vez na Noruega começou e terminou em Oslo. Da breve visita à capital o que mais gostei foi um parque nos arredores que tinha construções em madeira vindas de várias partes do país. A maioria eram casas modestas, rurais, robustas, preparadas para resistir às difíceis condições do clima. A mais bonita estrutura não era uma casa, era uma igreja com quase mil anos.
Regressei à Noruega em 1997, e estive em Arendal e também em Bergen, e no ano seguinte, novamente em Bergen, para reuniões científicas. Foram visitas curtas e sem grande história. A primeira de todas, essa sim, foi especial.
NOTA
1- Essa aventura foi resumida em “SOZINHO NUMA ILHA”.