SUSTO ESTRONDOSO

Apertei o dedo e, subitamente, o estrondo inundou-me o cérebro ao mesmo tempo que o meu corpo foi sacudido violentamente. Dizer que foi um grande susto é faltar à verdade. Apanhei um cagaço do caraças!

Terá sido a maior travessura que cometi na vida, e esta palavra não se aproxima minimamente da gravidade do que sucedeu. Talvez seja por essa razão que eu nunca verbalizei nem escrevi uma linha que fosse sobre o assunto.

Para que se entenda o sucedido será melhor contar a história desde o início. No começo da década de 1960, o início da guerra colonial abanou tudo em Angola. Se bem que os conflitos tivessem sido rapidamente circunscritos a regiões remotas, a sensação de insegurança levou muitos civis a armarem-se. Lá em casa não foi diferente e adquiriu-se um revólver para defesa pessoal.

Eu não sabia nada da guerra enquanto criança, quando se passaram os acontecimentos desta memória, mas assisti, mantido a distância conveniente, às sessões de treino em que a minha mãe aprendeu a disparar. Em consequência, talvez tivesse desenvolvido o desejo de experimentar, mas não me lembro se assim foi, ou se se tratou de um impulso momentâneo. O certo é que a oportunidade surgiu num dia em que fiquei sozinho em casa durante algum tempo. 

Vasculhei o quarto dos pais até encontrar a arma escondida. Da caixa com as munições retirei uma bala e introduzi-a no orifício certo, apesar de nunca ter pegado num objecto daqueles. Depois, fui para o quintal e escolhi o alvo, o tronco de uma árvore. Esperei algum tempo, escutando o silêncio dos quintais e da rua. Ufano, fiz pontaria e disparei. E voltamos ao início do texto.

O trovão foi de uma magnitude que eu não previra. Para quem possa estranhar a afirmação, devo dizer que uma coisa é ouvir a explosão à distância e outra bem distinta é ouvi-la a menos de um metro. Junte-se o coice da arma, demasiado forte para um miúdo de nove ou dez anos, e poderão compreender o choque que tive.

Logo que recuperei a calma, corri para dentro de casa e ocultei as evidências do sucedido. Limpei e arrumei tudo e desfiz-me do invólucro vazio. Talvez o tenha enterrado, não me lembro bem.

Quanto ao projétil, não descobri para onde foi. Obviamente, não ficou cravado no tronco. Na altura não pensei mais na experiência perigosa que tinha protagonizado. Só alguns anos mais tarde me apercebi do grande risco em que estive envolvido.

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