DOIS CRIMES NA NOITE

O que sucedeu naquela madrugada foi estranho, no momento em que ocorreu. E foi quase incompreensível para mim, que teria dez ou onze anos, quando soube a razão dos gritos. A explicação só surgiu na manhã seguinte, ao escutar as conversas em tom grave dos adultos. 

Nessa noite, ficámos a dormir em casa da família N. Pelos meus padrões desse tempo, a casa era espectacular, grande, bonita, bem recheada e numa localização muito favorável. A poucos metros da praia, a meio da restinga do Lobito, e junto à rua que ligava as praias ao centro da cidade, ficava perto de tudo. E ainda, para completar as mordomias no clima abafado da cidade, a casa tinha ar condicionado, coisa rara no início da década de setenta. Não eram abastados, simplesmente o senhor N era técnico de máquinas de frio. Poderão perguntar qual o motivo para estes detalhes, e a resposta vem dos estudiosos da memória. Dizem eles que as recordações ficam mais estruturadas quando estão associadas a emoções fortes. Foi o caso desta história. Não me lembraria da casa nem do conteúdo se não houvesse a cena geradora de inquietação, incompreensão e desconforto. E de tudo o resto desses dias nada mais ficou registado, para além da tragédia.

Voltando ao início, devo acrescentar que os tais gritos, arrepiantes, soaram de uma das casas na vizinhança, e  que voltei a adormecer pouco depois. E ainda bem, pois a história é pesada. Sendo económico nas palavras, eis o que apurei sobre a tragédia em casa dos vizinhos. O pai tinha abusado sexualmente da filha e a mãe espetou-lhe uma faca no coração. 

Pausa para respirar… 

Nunca de tais assuntos tinha ouvido falar. Claro que sabia que o sexo tem uma componente reprodutiva e outra de prazer. Contudo, o conceito de violação era desconhecido para mim. E a sua existência não fez qualquer sentido aos olhos da criança que eu ainda era, pois não se enquadrava naquelas duas categorias de relações  sexuais.

Também já tinha ouvido falar de mortes violentas, mas não fazia ideia de que pudessem ocorrer em casa, isto é, entre membros da mesma família. Impensável até então, pois pouco sabia da natureza humana.

As tragédias dos outros podem ensinar-nos alguns factos da vida. De outra forma, passariam ao lado, podendo surpreender-nos. Tenhamos nós a capacidade para aprender.

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