A PRESSÃO PARA SER O MELHOR

A pressão para ser o melhor não surgiu logo de início. Na verdade, só apareceu a meio do terceiro ano da licenciatura, quando acumulei uma mão cheia de boas notas, o suficiente para tornar a minha média num valor aceitável e acima da grande maioria dos meus colegas. 

Até aquele momento, a probabilidade de seguir a carreira universitária não passava de uma visão pouco realista, e eu sabia que, provavelmente, acabaria por ter outro futuro. Naquele tempo, o curso superior garantia emprego certo como professor do ensino básico ou secundário, desde que fossemos para o interior do país. E não havia mais nada para biólogos, nem na indústria nem nos serviços. Terminado o terceiro ano, ou bacharelato, como se designava no século passado, estava bem encaminhado. O título de Bacharel, apesar de já estar socialmente desvalorizado, dava emprego, no ensino, no direito, em medicina, e era comum em placas à porta de edifícios de serviços, ou em anúncios nos jornais. No entanto, com um objectivo alcançável no horizonte, empenhei-me fortemente no 4º e no 5º ano da licenciatura (sim, eram cinco). Podia optar pela especialização em ensino, como fizeram dois terços dos meus colegas, mas escolhi a via científica e tecnológica. Porém, tinha que ser superior aos do outro terço, porque a exigência seria maior. Portanto, a pulsão para ser o melhor do meu ano não vinha de fora, da família ou dos amigos, vinha mesmo de dentro, da vontade de atingir um patamar mais elevado, e de perseguir um ideal de prática científica, então envolta em mistério e magnetismo.

Entretanto, surgiu a oportunidade de candidatura a um lugar de Monitor, no departamento onde eu era aluno. Agarrei-a e vi-me a ajudar nas aulas práticas dos primeiros anos. E isto acontecia ao mesmo tempo que frequentava as minhas aulas, e me dedicava à tese de licenciatura (que tinha a designação oca de “Seminário” e que incluía trabalho de campo e de laboratório). Para adquirir experiência, voluntariei-me para ajudar dois dos professores nos seus trabalhos de investigação.  A esta equação complexa devo adicionar as relações sociais, umas mais afastadas, outras chegadas, e ainda a mais próxima de todas.

No final do 5º ano, a melhor média era minha, mas entrar na carreira não estava garantido, era necessário que abrissem  concurso, o que não ocorria com regularidade. À cautela, fiz inscrição para professor do ensino secundário, e considerei a possibilidade de ir para Macau. Contudo, tive sorte e o tal concurso abriu mesmo. A espera pelo resultado não foi fácil, mas obtive a única vaga. Finalmente, a recompensa  do esforço tinha chegado.

“Ficou quem eles queriam.” Foi assim que disse a minha mais directa competidora, num sarcasmo entre dentes, ao saber do resultado, colocando a razão da sua derrota no que ela terá sentido como discricionariedade do júri, em vez de reconhecer o meu mérito. Objectivamente, eu tinha melhor nota e currículo mais completo, e, subjetivamente, eu tinha deixado boa impressão nos professores, nomeadamente no mais influente, e no que tinha contado com a minha ajuda na sua investigação.

A posição de Assistente-estagiário, o primeiro grau da carreira docente universitária, abriu-me um mundo melhor, desafiante, nada rotineiro, com acesso a trabalho de investigação, viagens em serviço para muitos países, contacto com investigadores nacionais e estrangeiros melhores que eu e com idéias diferentes, e, claro, a oportunidade de lançar a dúvida nos melhores estudantes, incentivando o pensamento crítico. Por outro lado, o vencimento generoso foi um importante contributo para uma vida familiar mais desafogada. A pressão para ser o melhor mudou a vida e resultou numa carreira que se estendeu por quatro décadas.

Falta fazer uma confissão, o lado cinzento desta história. Quando me senti (e me sentiram) um pouco superior, apoiado nas boas classificações, no conhecimento, nas experiências da vida e na razão recorrente (ai, isto soa tão mal!) reforcei a autoconfiança. Como efeito secundário, comecei a cometer um erro que não consegui evitar. Usei o argumento de autoridade, nem sempre de forma consciente. Por vezes, apercebendo-me da situação, dobrei a língua ou disfarcei para tentar não menosprezar ninguém, mas sei que nem sempre tive sucesso. Espero que me desculpem…

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