TORTUGUERO

Aquela bola de grossa e parda pelagem avançava lentamente, pendurada no arame farpado por longas garras. Carregando outra bolinha peluda agarrada ao ventre, não mostrava qualquer receio dos bípedes que observavam de muito perto, falavam alto e metralhavam as máquinas fotográficas com entusiasmo. Eu já tinha visto preguiças no Brasil, mas não a dois metros de distância, e, qual cereja em cima do bolo, levando uma cria tão fofinha.

A cena descrita foi a primeira de muitas que merecem destaque quando me recordo daquela viagem. Quando chegámos ao istmo que une as Américas, não éramos folha em branco no tema da grande biodiversidade. Afinal, um lustro passado em Angola constitui um bom lastro. A visita familiar à Austrália, a somar às viagens a parques nacionais e naturais pela Europa, Estados Unidos da América e pelo Negev, e ainda a minha passagem pelo Banc d’Arguin e pela Amazónia, não faziam antecipar tal espanto pelo banho de Natureza.

O melhor é começar pelo princípio. Aproveitando uma viagem de serviço, decidimos aumentar a estadia para uns dias de férias em família na Costa Rica. Depois de um longo dia a cruzar o oceano, entrámos no hotel de San José só com as  malas de cabine. As outras, retidas no aeroporto de partida, encontraram-nos três ou quatro dias depois. Em consequência, fomos a um pequeno centro comercial comprar algumas peças de vestuário e escovas para os dentes. Até foi divertido.  

O dia seguinte começou cedo para a travessia de cinco ou seis horas em direcção à costa leste, com paragem para almoço incluída. Primeiro fomos por uma via principal, e continuámos por uma estrada terciária, precisamente aquela onde vimos a mãe preguiça com a sua cria.

Mais adiante, a estrada sólida terminou e começou a via líquida para o nosso destino, o alojamento no Parque Nacional Tortuguero. Os últimos quilómetros foram feitos num barquinho rápido, serpenteando ora por canais mais largos iluminados pelo sol, ora por túneis sombrios e estreitos na  floresta densa. E foi aí que tivemos a segunda surpresa. Não foi a profusão de lianas floridas nem a abundância de garças à pesca. Foi um animal fantástico a que o barqueiro chamou de lagarto Jesus Cristo. Este réptil é conhecido pela sua habilidade de correr pela superfície da água sem afundar, e vimos esse espectáculo mesmo à frente do barco.

Pouco mais adiante, chegámos ao canal principal. Com cerca de centena e meia de metros de largura, marginado pela floresta compacta, estava polvilhado de canoas e de outros pequenos barcos, sinal de uma aldeia sem acesso por estradas. Quando a vimos parecia pobre, um bairro de lata e pouco mais.

Os dias seguintes foram um festival de vida selvagem. Sem sair do alojamento, meio metido na floresta tropical, vi incontáveis passarinhos, e tucanos, e periquitos, e colibris! Até macacos-uivadores se passearam pelas árvores ali ao lado, e, na base delas, inúmeros invertebrados: aranhas peludas, miriápodes coloridos, vespas a saírem de um tubo translúcido, filas de formigas-cortadeiras e muitos mosquitos, como não podia deixar de acontecer. Nos troncos mais húmidos e no chão, surpreendentemente, pequenas rãs, daquelas vermelhas e azuis que apetece ter na mão, mas não é aconselhável devido ao forte veneno acumulado na sua pele. O refeitório era um bom ponto de observação. Não faltavam lagartos apressados patinando no soalho liso, e borboletas de cores vivas. Ao crepúsculo, e continuando noite adentro, as garças mais espertas vinham pescar junto aos holofotes do cais. E ainda, para completar o espectáculo, morcegos piscívoros arrastavam as unhas à superfície da água, em competição com as garças pelas presas mais pequeninas.

Fizemos vários percursos de barco pelo interior da floresta tropical húmida, tão húmida que apanhámos chuva por duas ou três vezes. A água limitou a reportagem fotográfica, mas não nos impediu a observação de plantas de muito formas e com flores esquisitas e de cores vibrantes, compondo uma paisagem complexa e hipnotizante.

Vimos muitas aves aquáticas, como jacanas apressadas, garças grandes e pequenas, alvas, azuis e axadrezadas, de pescoços  longos ou extra-longos, encharcadas até ao miolo ou em voo  com elegância. Para além de muitas pequenas aves, foram  observados também abutres, pequenas rapinas e guarda-rios.  Empoleirados nas árvores, grandes iguanas, verdes uns e castanhos os outros, imóveis, captando os raios de sol da manhã. Na ramagem alta, macacos-aranha faziam malabarismos e, mais abaixo, os  capuchinos não nos deram atenção. Alguns deles, saltitando em galhos imbricados nas plantas flutuantes, procurando alimentos na superfície da água, estavam mais preocupados com os predadores, os crocodilos. Estivemos muito perto de um destes caçadores, já grandinho. Julgando-se invisível entre os jacintos-de-água, não fugiu até que o barco quase lhe tocou.

Fomos também à praia, não a banhos pois estava frio e vento, mas para ver os vestígios da eclosão das tartaruguinhas. Cascas dos ovos espalhadas no areal batido pelo Atlântico davam uma pista sobre o fenómeno, terminado havia pouco tempo, e que gostaria de ter presenciado.

O regresso à capital fez-se pelo caminho inverso, com pena de sair daquele paraíso, e a viagem prosseguiu. As etapas seguintes incluíram circundar um vulcão escondido nas nuvens, percorrer um tubo de lava atapetado com belíssimos depósitos calcários, descer os rápidos de um rio caudaloso, visitar praias do Pacifico, favelas, mercados e museus, fazer um passeio noturno pela floresta debaixo de chuva, e ainda desfrutar da visão de muitos colibris, tão de perto que quase lhes podia tocar 1.

Deixei para o final uma questão que me ocorreu ao passar pela pobre aldeia, junto à praia onde tínhamos observado as cascas dos ovos. Será que vimos algum “tortuguero”? O termo aplica-se aos caçadores de tartarugas e aos recolectores dos seus ovos. Afinal, é esse o nome da povoação e do Parque. Durante muito tempo, a utilização da carne e dos ovos das tartarugas como recurso alimentar foi considerada normal, até que o excesso de exploração as colocou em risco de extinção, ali e um pouco por todos os mares. Graças aos esforços de associações cívicas internacionais, foi declarada a proibição das actividades prejudiciais à sobrevivência destes répteis marinhos. No entanto, a fiscalização é difícil, e o apelo dos traficantes e do mercado negro é muito forte. Respondendo à pergunta, é muito provável que sim. 

NOTA

1 – Ler também ARCO-ÍRIS VOADOR 

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