O NOBRE

A primeira vez que contatei o Nobre foi em novembro de 1975, e a relação durou quase dois anos. Longe de ser fidalgo, completamente plebeu, ele foi fundamental para o resto da minha vida.

“O Nobre” era o nome familiar pelo qual ficou conhecido o antigo Liceu António Nobre, homenageando o poeta portuense. Era o mais próximo de casa, a uma vintena de minutos a pé. Recentemente chegado ao Porto, refugiado da guerra em Angola, comecei a frequência das aulas já o primeiro período ia muito adiantado, mas recuperei do atraso. Era o tempo de dificuldades económicas, familiares e nacionais, de convulsões políticas e sociais que se reflectiam no dia a dia da escola, e era o tempo dos retornados, tolerados por uns, defendidos por poucos, hostilizados por outros. Recebi apoio do Estado, nomeadamente o empréstimo dos manuais escolares e senhas de refeição para a cantina, o que causava engulhos aos que nos apelidavam de exploradores de pretos. Alguns seriam de famílias que beneficiaram dos abusos nas colónias, que muitos houve, mas, culpar indiscriminadamente os filhos de todos não tinha fundamento. Adiante.

Nesses dois anos, acompanhei dois grupos de colegas da turma. O primeiro não poderia ser mais improvável, pois éramos quatro rapazes muito diferentes. Um tinha vindo de uma aldeia transmontana, de faces coradas, meio crespo e pele tisnada, desterrado no litoral para completar o sétimo ano numa boa escola. Farto da cidade, só pensava na vacaria nova que queria construir nas terras do pai. Descrevendo as instalações a fazer, a raça das vacas que queria comprar e os pastos a semear, repetia frequentemente o seu sonho, tinha tudo planeado. Outro colega era rosado, alourado e gordinho, e abusava de um discurso desagradável sobre quem era comunista, com tiradas nazis que citava dos livros que exibia, de modo provocatório. Contudo, era pacífico. Subtraía comprimidos da farmácia do pai, que trocava por haxixe para consumo próprio. Oferecia as pedrinhas também aos mais próximos. Antes que formulem a dúvida, respondo já. Sim, aceitei e experimentei, mas não fiquei cliente. Anos mais tarde, soube que ele se tinha tornado dependente de substâncias mais pesadas, e que nem duas tentativas de desintoxicação foram eficazes para interromper a sua espiral de autodestruição. Acabou por se matar. Adiante. O terceiro elemento era baixo e engomadinho. E dele mais nada sobrou na memória, nem uma ideia, nem uma acção. O quarto era eu, e, obviamente, lembro muito sobre mim. O grupo não estava sempre no Nobre. Fora dele, íamos a uma casa de jogos, com muitas máquinas de flippers, muito populares nessa altura. Como eu nunca tive jeito para jogos de teclas, acompanhava-os por espírito de grupo. De outras ocasiões, raras, íamos ao cinema. Lembro-me de ir também um par de vezes ao Sá da Bandeira, que exibia películas pouco recomendáveis. Nesse tema, a curiosidade levou a melhor. As razões para explicar a minha pertença ao grupo são obscuras, e devem estar relacionadas com alguns fatores sociais que teríamos em comum, pelo menos um deles. E posso mencionar os seguintes. Falando por mim, era introvertido, desenraizado, geograficamente e culturalmente (nem sabia as cantigas que todos repetiam nas excursões escolares) não convivia com colegas de escola primária, nem com vizinhos de longa data. 

O outro grupo era composto por quatro raparigas, também muito diferentes entre si, às quais se juntavam, por vezes, mais duas da turma vizinha. Alguns satélites masculinos, entre os quais aqui o vosso relactor, eram tolerados ou cooptados. Três delas eram excelentes alunas, as melhores da turma. Não sei dizer como, mas acabei por fazer alguns trabalhos de grupo com elas, e fui, em várias ocasiões, estudar em conjunto na casa de uma ou de outra. Havia uma morena de cabelo curto e de nariz arrebitado, a líder, que tirava boas notas a tudo. Equilibrada e simpática, girava tudo à sua volta. Outra era loura, de longa cabeleira escorrida, instável, tanto mostrava empatia como irascibilidade súbita, pedindo desculpas logo de seguida. Fazia magia com os números, e foi ela que me ajudou a superar as dificuldades que senti em certos problemas de matemática. Dizia “… olha, não ligues ao que a prof escreve no quadro, só aumenta a confusão, faz assim…” E eu entendia tudo. A terceira tinha uma sensibilidade especial, e interpretava textos como nunca tinha visto, trazendo ao grupo factos escondidos nos romances, e sentido aos poemas mais crípticos. A última, com rosto sardento e bolachudo, desconfiada, era a menos cativante.

Três outros alunos do Nobre devem ser também aqui mencionados, por razões distintas. Primeiro o inusitado. Havia um tipo que chamava a atenção, corpo de halterofilista e sempre de t-shirt sem mangas, com as marcas de terem sido arrancadas, fosse verão ou inverno. De simpatias supremacistas, coleccionava vintes para entrar em medicina, e olhava para todos com soberba e repulsa. Só o refiro agora porque o mister “mais que perfeito” fez burrice ao preencher a candidatura à universidade. Enganou-se no código e ficou colocado num curso que desprezava. Quando me relataram o sucedido, não pude deixar de sorrir pela punição que o universo tinha proporcionado a tal personagem. As outras duas pessoas, uma da minha turma e uma amiga dela da sala ao lado, devem ser aqui chamadas porque nos reencontrámos um ano depois do Nobre, e acabámos por fazer juntos a mesma licenciatura.  

Aquela turma do Nobre era mesmo especial, e cinco elementos, as três melhores, eu, e ainda uma do par que acabei de referir, iniciámos a carreira docente universitária, no final das respectivas licenciaturas. Quanto aos restantes, excepção feito a uma dentista e a um criador de bovinos (estou convicto de que ele realizou o seu sonho) não faço idéia do que são hoje. 

O que aprendi naqueles dois anos foi fundamental para o meu futuro. Não foram apenas os conhecimentos que contribuíram para o sucesso universitário e uma vida confortável. No Nobre, pude clarificar uma perspectiva mais realista sobre mim. Tendo feito o 5º ano do liceu com a média mais alta, vinha convencido de que a continuação seria fácil. Não foi. E havia outros mais inteligentes e melhores.

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