A imagem do rapaz a comer gafanhotos vivos vem à superfície das memórias com alguma frequência, a maioria das vezes quando me surgem cenários com diferenças culturais de monta.
A lembrança vem do início dos anos setenta, quando eu tinha idade semelhante à do protagonista. Nesse dia, ao cair da noite, uma nuvem verde vinda do mato invadiu a povoação, afugentando quem nunca tal coisa tinha visto para o interior das casas. Eram gafanhotos verdes aos milhões, voando por todos os lados. Atraídos pelas luzes já acesas, aglomeravam-se em cachos nos postes de iluminação pública e cobriam as vitrinas dos estabelecimentos comerciais. E foi desde o lado de dentro de uma montra que observei o rapaz, apanhando os bichos pelas asas, arrancando-lhes as patas, e metendo na boca o corpo mole do petisco. Ele não tinha aspecto de sofrer de privação alimentar, mas a sua expressão facial não permitiu confirmar se o acto era por fome ou por prazer.
Eu já tinha pegado muitas vezes naqueles ortópteros, quando aparecia um ou outro no quintal, e tinha verificado que, ao contrário dos outros, couraçados e ásperos, os verdes são moles, macios ao tacto. Por isso, apesar do inusitado da cena, não me admirei muito que fossem usados como alimento, até porque tinha presenciado, algum tempo antes, outro episódio semelhante. Foi quando, numa ida a um rio distante para pescar, um dos ajudantes tinha comido o isco vivo que levávamos para colocarmos nos anzóis. Dessa vez, suspeito que terá sido a fome a motivar o miúdo a comer as gordas térmitas que lhe tinham entregado para transportar, num frasco de vidro com furinhos na tampa.
A cena levou-me a uma reflexão sobre o assunto, juntando as cenas acima relatadas aos costumes que vira nas viagens familiares pelo território angolano, desde os feiticeiros ao vestuário e ornamentos usados em locais recônditos. Pensei ainda em outro episódio que me tinham relatado, e que vem a propósito revelar. Entrego-vos tal como o recebi. Naquele tempo, nas melhores esplanadas das cidades costeiras de Angola, cada cerveja vinha acompanhada de um pratinho com camarões. Quem contou a cena estava a beber um fino quando ouviu dizer a um grupo de desditosos recentemente chegados do interior (via-se na indumentária) que os ricos comiam aqueles bichos nojentos.
A minha reflexão dessa altura terá sido pobre, por falta de conhecimentos, de referências, de maturidade… Anos mais tarde, pude aprofundá-la com mais substância, e foi ao ler uma obra que me forneceu melhores instrumentos de análise. O livro1 disseca os encontros, desencontros e confrontos de culturas no Novo Mundo, quando a vaga de colonização iniciada no século 15 enfrentou outros colonos que aí tinham chegado com avanço de alguns milhares de anos.
A cultura é um factor tão poderoso que molda reações basilares do nosso corpo, como por exemplo o incómodo que sentimos ao vermos outrem a ingerir algo que temos por repugnante, para além de vendas que nos limitam a percepção do óbvio. Em tempo de conflitos culturais, de fé violenta, de intolerância e de carneirismos ideológicos, conscientes ou não, seria bom usarmos mais a razão e menos as tripas.
NOTA
1 – O livro é “Tristes Trópicos” Claude Lévi-Strauss
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