Naquele ano, os claustros quase conventuais e o grande e frio salão acolheram-me muitas tardes. O espaço coincidia com o momento. Sem rodeios, a vida não foi fácil durante o ano lectivo de 1977/78, e pouco de relevante aconteceu. Ainda assim, é possível espremer a memória e extrair algumas coisas interessantes, como as que se relatam em seguida.
Terminado o sétimo ano do liceu, sabia já que me esperava uma nova experiência educativa. Lançado nesse ano para funcionar como preparação para a universidade, seria o 12º na nossa escolaridade. O seu nome originou algumas reações de estranheza, de troça e de perplexidade: “ano o quê?” Ano Propedêutico. Foi um modelo de ensino com aulas gravadas previamente, e difundidas durante as manhãs no segundo canal da televisão pública. Nessa altura, eu já morava sozinho nas águas furtadas que tinham servido para toda a família, e era aí que assistia às sessões num aparelho portátil. Mesmo com atenção, e tomando notas das aulas, escapavam sempre alguns detalhes. Por isso, fiz um cabo para ligar a tv a um gravador de cassetes. Desse modo, mais tarde, eu podia reproduzir o som, quantas vezes quisesse, para esclarecer o que não tinha entendido à primeira. Depois do almoço, exilava-me então na Biblioteca de São Lázaro, local onde começou este texto. O meu dever era corresponder ao esforço que a família fazia para me dar estudos que conduzissem a uma vida melhor. E cumpri, estudando muito.
Todavia, sentia falta das aulas presenciais. Deslaçadas as recentes e pouco densas amizades do liceu, certamente por culpa minha, as rotinas eram monótonas, e não admira que me faltasse convívio. Foi um período em que li bastante, sobretudo literatura portuguesa, pois os livros são boa companhia. E ouvi muita música nos programas nocturnos de rádio, descobrindo grandes obras de jazz e de rock sinfónico. Com limitações financeiras, movia-me pouco, e nem fotografias tenho desses anos. Ainda assim, algumas pessoas desses tempos deixaram vestígios na memória.
Uma delas, conheci-a por acaso numa das vezes em que fui buscar textos de apoio disponibilizados pelo Ministério da Educação. Na sequência de conversa de circunstância, disse-me que não entendia uma parte da matéria, ao que retorqui ser de fácil resolução. A L era pequena, de cabelo amarelado, muito despachada, e não hesitou em pedir ajuda. Escolheu o dia, a hora e o local, o Café Locarno. “Pode ser?” Eu não gostava desse ambiente para estudar, mas anuí e compareci. Foi o início de um ciclo de explicações que viria a durar até aos exames finais. As sessões até eram agradáveis, pois ela tinha boa disposição e era um pouco sardónica. Contudo, falava tanto que até ela se interrompia e pedia desculpa por ser tão palavrosa. Cheia de certezas sobre tudo, não aceitava bem idéias diferentes, e ficou desconcertada com o meu ateísmo. Colaboradora paroquial em Fânzeres, não entendia a minha opção, tal como não considerava outras mais simples. Lembro-me da expressão de nojo quando viu um velho livro que eu tinha, comprado por tuta e meia num alfarrabista. “Não transmite doenças?” Passou no exame final, missão cumprida. Vi-a uma ou duas vezes nos anos seguintes, até lhe perder o rasto.
Outra pessoa de quem me recordo não podia ser mais diferente da acima referida. A sua tia, uma mulher seca e austera, cliente da minha mãe, sabendo que eu era bom aluno, pediu-me para dar explicações à sobrinha, também a frequentar o propedêutico. Deu-me a morada e recomendou cuidado com a fragilidade da moça. Na data aprazada, bati à porta e disse ao que vinha. Uma senhora fardada conduziu-me ao escritório, onde esperava já a explicanda. Morena, de longos cabelos muito escuros, tinha olhar meigo e triste. Tratou-me de modo formal, como devia ser o padrão familiar, e, terminada a apresentação, fiz o que me competia. No final, enfadada com a matéria, começou a fazer perguntas diferentes. Respondi com cuidado, atendendo ao aviso prévio, mas ela, apercebendo-se das minhas reticências, quis saber o que me teriam dito dela. Fui sincero. Com essa atitude, ganhei a sua confiança. A partir desse momento, tudo mudou. Revelou-me então que tinha dificuldade em concentrar-se, resultado de uma queda na missa. O traumatismo craniano sofrido provocou alteração da personalidade e a perda da fé, um escândalo para a família. Passou a ser superprotegida, com rédea curta. À segunda vez, recebeu-me com rosto aberto. Depois do estudo, pediu-me para falarmos sobre cinema, música, livros, e acerca do que eu fazia nos tempo livres. Conversas soltas e alegres. Depois de três ou quatro sessões, a tia amarga dispensou os meus serviços e pediu para nunca mais contactar a “menina doente”. Ainda tentei falar-lhe ao telefone, mas a voz fardada informou que a menina tinha ido para outra casa. Nunca mais soube dela, nem o que motivou o afastamento forçado. Hoje, sinto alguma vergonha por ter esquecido o seu nome.
Além da família, outras pessoas desse tempo merecem breve referência. São algumas clientes da minha mãe, governanta de uma residência feminina na rua D. João IV. Era lá que eu ia almoçar e jantar, e, muitas vezes, passar o serão a estudar, a jogar ou a ver programas populares na televisão. A amabilidade não estava distribuída por igual, mas havia algumas residentes muito simpáticas. Depois do serão, seguia-se o regresso ao dormitório, meia hora de caminhada.
No Ano Propedêutico, fui fazer os exames nas instalações da Escola Industrial Infante D. Henrique e do Liceu Clara de Resende. Os bons resultados foram essenciais para encarar a candidatura à universidade com mais certeza do que dúvida. O esforço feito foi recompensado, e começou uma vida nova e mais complexa.