O TRILHO DO CASUAR

É pouco mas é muito. Sim, parece estranho, mas eu explico. Percorrer mais de dois mil quilómetros na imensidão das estradas australianas é pouco, por razões óbvias e atendendo à adjetivação aplicada. Mas também é muito, quer pela diversidade de paisagens e de seres vivos que se observam com facilidade, quer pelas muitas oportunidades para descobrir  coisas novas e viver experiências inesquecíveis.

Vem isto a propósito do trilho do casuar. Tropeçámos nele, e isto é apenas um modo de dizer que foi por acaso, ao percorrermos a estrada nº1, aquela longa via que se estende por quase quinze mil quilómetros e que circunda o continente.

Vindos de Cairns, vimos primeiro os letreiros na berma. Mais adiante, chegámos ao parque de estacionamento do centro interpretativo, a designação pela qual são agora conhecidas as estruturas daquela tipologia. Na verdade, eram apenas dois barracos semi abertos com imagens e textos simples sobre o famoso habitante da floresta tropical, o casuar. Descreviam as particularidades da sua anatomia, explicavam a sua importância como agente dispersante de sementes, as ameaças à sua sobrevivência, e ainda quais os cuidados a observar perante a agressiva ave. Após a leitura, seguimos as setas e demos os primeiros passos no trilho. Bastou uma  escassa vintena de metros e ficámos envolvidos pela floresta tropical. Como esperado neste ecossistema, debaixo das árvores imperava uma penumbra omnipresente que transformava a percepção das cores, tudo parecendo baço. A densidade vegetal, bloqueando os ruídos da movimentada estrada ali mesmo ao lado, abriu lugar ao rumorejar da brisa na folhagem, aos pios, zumbidos e outros sons da fauna quase invisível. A par dos aromas frescos das plantas, os odores húmicos de material orgânico em decomposição estavam por todo o lado, mesmo ao alcance dos narizes menos sensíveis. Não foi necessário caminharmos muito para encontrarmos vestígios de casuar. Se as esgravatadelas eram equívocas e o solo muito duro para pegadas, os grandes excrementos não deixaram dúvidas. Tal como descrito nos cartazes à entrada, apresentavam-se cheios de sementes, restos de frutos da floresta.

Não sei se algum casuar nos terá visto nesse dia, bem escondido na densa folhagem. Nós é que não lhe pusemos a vista em cima.

Excremento de casuar.

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