XADREZ, PURO PRAZER

O  meu pai ensinou-me a jogar xadrez, teria eu treze anos. Hoje já não jogo nada, só me divirto com partidas semi-rápidas no computador. Gosto mais das rápidas, mas deixei de as jogar. A razão é simples, já não consigo mover o cursor com a velocidade necessária e perco sempre por falta de tempo. Mesmo em semi-rápidas, ao tentar mover as peças mais rapidamente, também me engano nos cliques do rato e faço asneira, frequentemente. Não me importo.

Digo que já não jogo nada pois reconheço a incapacidade crescente de me concentrar, já pouco me lembro da teoria das aberturas e perdi automatismos. Muitas vezes, esqueço-me da análise que fiz à posição e acabo por fazer um movimento descartado um minuto antes. Não faz mal, pois continuo a gostar de jogar, apesar destes problemas. O facto é que o envelhecimento tem custos, e devemos aceitá-los com bonomia. Seremos revoltados e amargos em caso contrário. Também a redução crónica da quantidade de oxigénio que me chega aos neurónios tem consequências conhecidas e ajuda a explicar os problemas descritos. Adiante, o que importa é que jogar faz-me bem.

Longe vão os tempos em que era comum a minha participação em campeonatos regionais, nos individuais e nos colectivos, integrado na equipa do FCP1. Nessa idade, eu estudava aberturas, analisava partidas dos Mestres e treinava finais, sozinho ou em grupo, e foi compensador. Depois, com o adensar da vida familiar, profissional e associativa, o xadrez foi-se tornando mais ausente. Quando os computadores ficaram melhores e ubíquos, surgiram programas para os defrontar. Os primeiros eram toscos, mas depressa ficaram excelentes e invencíveis na sua máxima força. Para equilibrar as partidas eu tinha que reduzir o grau de dificuldade. Ao fazê-lo, contudo, os programas cometiam erros pouco lógicos, artificiais e desagradáveis. Por essa razão,  com a vulgarização da internet e o aparecimento de plataformas que permitem jogar em tempo real e a qualquer hora com outras pessoas, jogadores que cometem erros humanos e que preparam armadilhas, aderi com satisfação. Ainda hoje não dispenso o “tratamento” diário.

Regressemos agora ao início da memória. Como disse acima, entre muitas outras coisas, o meu pai ensinou-me a jogar. Primeiro a mover as peças, depois ensinou-me a garantir vantagem e como vencer. Tomei-lhe o gosto e pedi muitas vezes para fazermos mais uma e outra partida. Um dia ganhei-lhe, sem condescendência. Disse-me “já sabes jogar” e nunca mais jogámos.

NOTAS 

1 – Ler DESPORTO RARO 

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