Parece que estou a vê-lo, bem-falante, pesadão e melenas, sempre de sandálias e calções. Só não cabia bem no estereótipo pois usava camisa branca de marca. Tinha sido enviado pelos pais para a casa de um tio na vila do interior, longe das distrações de Luanda. As razões do castigo, se alguma vez as soube, há muito que as esqueci.
O certo é que ele estava ali desterrado para terminar o quinto ano do liceu, mas a sua presença desequilibrou o marasmo habitual da escola. Tinha novidades da capital, sabia da vida dos famosos que nunca visitariam a vila, e lera livros que ali não havia. Não é de estranhar, portanto, que o seu discurso atraísse a atenção do pessoal, sobretudo da parte feminina do liceu, o qual, obviamente, era misto.
A situação cedo chamou a atenção dos machos da terra. Não tardou muito, talvez duas semanas, para que surgisse um cavernícola no liceu que já não frequentava. Perdão, era um cavaleiro galante em defesa da “sua” dama. Interrompendo a cavaqueira do grupo, espetou duas bofetadas no atarantado visitante e deu-lhe um par de biqueiros no traseiro anafado, ao mesmo tempo que pronunciava frases sobre as miúdas da terra que não eram para cobiçar.
A coisa ficou por ali porque os restantes machos trataram de conter o troglodita ciumento. Afinal, a mensagem estava transmitida e não convinha exagerar na amassadela para não atrair efeitos indesejados. Caso fosse apresentada queixa da agressão, surgiriam consequências desagradáveis. Afinal, o hippie vinha de boas famílias…
Esta memória não é apenas sobre etologia básica de primatas, e a segunda parte aborda comportamentos mais complexos. Algum tempo após o episódio relatado, circulou um rumor que inquietou a vila. Uma carta anónima tinha aparecido algures, contendo adjectivação pouco simpática em relação às autoridades e às principais figuras da terra. Um ultraje indesculpável. Nunca vimos a tal missiva, mas, convenientemente, e isso é que era relevante para quem mandava, soube-se que tinha sido chamada a polícia política.
Não passaram muitos dias até que fosse descoberto onde tinha sido dactilografada a subversiva carta. Uma letra desalinhada e outra que não marcava bem na folha de papel foram suficientes para identificar o aparelho. Só quem já usou este método de escrita entenderá o significado desta terminologia, mas a mesma ajuda os restantes a compreender os factos. Depois de saber quem poderia aceder à máquina de escrever, a PIDE reduziu os suspeitos a um. Confrontando o infeliz hippie com métodos infalíveis, facilmente obteve a confissão da autoria da ofensiva epístola.
O quebrado hippie foi obrigado a rumar de Camacupa para Luanda, devolvido aos progenitores por indecente e má figura, e para receber o correspondente castigo. Nunca mais ouvi falar dele, nem de que modo teria sido punido. Suspeito que não terá passado muito mal, em comparação com tantos outros caídos nas mãos da polícia política. Afinal, o hippie vinha de boas famílias.