AS PEDRAS DE SÃO BARTOLOMEU

Um dia, apiedado pela desgraça do homem, S. Bartolomeu deu-lhe três pedras dizendo: com estas pedras, vai e faz o coração da tua nova casa. O homem, agradecido, seguiu o sábio conselho… Alto lá que não é nada disto! Enganei-vos bem, recomecemos. 

Avaliando à distância de quatro décadas, as três pedras pesariam, em conjunto, mais de uma centena de quilogramas. Duas delas eram quase iguais e simétricas entre si. A terceira era maior, com frisos em relevo num desenho sóbrio. E é verdade que vieram de S. Bartolomeu.

Sim, vieram, não do próprio São Bartolomeu, mas do local votivo, terra de lavradores e de gente do mar. Local esse que era, e ainda é, infelizmente, mais famoso pela anacrónica romaria onde crianças apavoradas são mergulhadas nas ondas por adultos ignorantes. O seu nome completo, São Bartolomeu do Mar, foi alterado já neste século  para uma designação mais simples e “original”: chama-se agora Mar, simplesmente. Mais valia estarem quedos. Imaginemos que a moda pega e começam a mudar o topónimo às terras com nome de santo… Adiante. A terriola, a pouco mais de meia centena de quilómetros a norte do Porto, era também conhecida pelos artesãos que trabalham em pedra. No tempo em que não havia autoestrada, o trânsito passava pelo lugar, atravessado pela Nacional nº 13. À esquerda e à direita, vários terreiros apresentavam pedras tumulares, colunas, corrimões, balaustradas, fontanários e outras peças para os passantes verem. E eu vi, tantas vezes por lá passámos. Vai daí, quando decidimos melhorar a nossa sala, o local para procurar surgiu sem esforço. 

Fomos lá comprar as três pedras para embelezar o coração da nossa sala, a nossa lareira, a qual era de cimento. Foi a família toda, num fim de semana descontraído. Parámos junto ao espaço mais arrumado e percorremos a exposição até que a opinião unânime recaiu nos três blocos de granito sem arrebiques ou ornamentações barrocas. Depois da decisão seguiu-se a transação, que decorreu sob orientação do meu sogro, homem experimentado na negociação de preços. A venda sem papel ficou selada com um aperto de mãos e assente na palavra de ambos, um costume antigo. Só tive de colocar nas mãos curtidas do canteiro as notas de conto de réis equivalentes a metade do custo total. O restante só lhe paguei quando, dias depois, recebemos em casa as pedras de S. Bartolomeu. 

Seguiu-se o trabalho de trolha, colocando as pedras em posição e mudando a sala para melhor. No entanto, em resultado de mais obras em casa, a lareira não permaneceu muito tempo no mesmo sítio, mas isso fica para outra memória.

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