Quando as memórias se perdem, todos perdemos um pedacinho de vida, mesmo que dele não sintamos falta ou não tenhamos consciência do seu desaparecimento. A perda ocorre devido a causas intrínsecas ou orgânicas, e também por motivos externos, mas não é esse o objectivo deste texto.
Vem este intróito a propósito de informação quimicamente fixada em bocadinhos de acetato de celulose. Transitoriamente, pois este material é perecível e, mesmo guardado em boas condições, não dura muito. Com o rolar do tempo começa a degradação, mais rapidamente nalguns tipos e marcas do que noutros. Duas décadas são suficientes para iniciar a ruína de um conjunto dessas memórias. E tudo piora quando aparecem os fungos que as corroem.
Milhares de slides ou diapositivos estão arrumados em caixas e arquivadores empilhados sequencialmente no armário por cima do roupeiro. Este não tem condições especiais e há três décadas que cumpre a função, suportando variações da humidade mais do que da temperatura ao sabor dos equinócios e solstícios. Contudo, uma parte desse espólio data já do início dos anos oitenta, e também não esteve mais bem guardado na nossa anterior habitação.
São mais de quinze mil slides, um registo fotográfico de viagens, de festas, do crescimento dos filhos, primeiro ainda bebés, depois crianças, adolescentes e já adultos, documentam episódios familiares, retratam o aparecimento dos cabelos brancos, mostram as alterações no nosso quintal, as obras em casa, o nosso trabalho, a nossa participação em acções pelo ambiente, registam os acampamentos e muita natureza, sobretudo aves, mas também rochas, plantas e paisagens…
Durante alguns anos visitei periodicamente essas imagens. Depois perdi mobilidade e o acesso a essas memórias ficou limitado e inviável. Na última década, por duas ou três vezes, fizeram-me o grande favor de projectar algumas dezenas de imagens. Reparei na qualidade diminuída das mais antigas, as cores desvanecidas e o contraste reduzido, mas foi bom rever momentos bem vividos e detalhes do passado entretanto tornados nebulosos ou mesmo esquecidos. Contudo, para terceiros é uma consumição lidar com o velho equipamento de projecção, e abstenho-me de o mendigar. Contento-me com a visualização das imagens armazenadas no computador. São, na sua maioria, fotografias feitas com as máquinas digitais. Estas vieram depois das mecânicas, primeiro de forma complementar e, passado algum tempo de coexistência, quando ficaram melhores, as únicas ao meu serviço. Numa estimativa sem muito esforço contabilizei mais de oitenta mil fotografias feitas com as máquinas digitais. Em consequência da nova tecnologia, a minha época dos slides chegou ao final. O último rolo foi exposto em 2009.
Em tempos, digitalizei ou mandei digitalizar alguns slides, imagens das crianças, reportagens de algumas viagens especiais, imagens para usar nas aulas. Vejo-as também no computador, sempre que quero. Arrependo-me de não o ter feito também aos restantes, ou então, se não a todos, a uma seleção mais alargada dessas memórias. Teria sido dispendioso. O facto é que tenho saudades de rever as imagens do nosso interrail, da Eurodisney, dos Alpes, de Gibraltar, da Suíça e de outras aventuras familiares, mas também da primeira viagem à Noruega, dos cruzeiros de investigação…
No início dos anos oitenta, comecei a usar diapositivos por duas razões. O descontentamento com as cores nas fotografias impressas em papel e o respaldo de quem sabia mais sobre o assunto. Nesse período não li nada acerca da degradação, e só mais tarde tomei consciência do problema. E se não tivesse feito a transição para os slides? Teria armários cheios de álbuns com fotografias? Estariam em bom estado? Não sei. Pouco importa. O vasto conjunto de memórias fotográficas tem valor para mim, principalmente. Quando eu desaparecer, pouco valerão.
O facto é que a família próxima não valoriza as coisas antigas, e as memórias acabam por cair nessa categoria. Ao longo da última década, ninguém folheou os álbuns de fotos familiares senão a meu pedido, e ninguém manifestou vontade de ver os diapositivos antigos.
Cada um tem a personalidade que tem, e o direito a dar mais valor ao que bem entende ser relevante. Eu tenho que compreender e aceitar que não é importante para todos quando as memórias se perdem. Mesmo que percam um pedacinho da sua vida e dele não sintam falta, ou não tenham consciência do seu desaparecimento.