O meu pai aproximou-se com um livrinho na mão e disse: lê bem e pergunta se tiveres alguma dúvida. Claro que li bem, mas não lhe coloquei perguntas. Se ele parecia acanhado quando me deu o livro, talvez se sentisse pior quando estivesse a explicar o seu conteúdo. Percebi tudo, disse-lhe algum tempo depois, descansando-o. O episódio passou-se teria eu dez ou onze anos feitos e, certamente, a minha mãe esteve também envolvida na operação.
O livro tinha pequenos textos e ilustrações esquemáticas com os órgãos sexuais, as transformações do corpo na puberdade e depois para a maturidade, o coito, a gestação e o parto, tudo explicado em linguagem simples e neutra, adequada a crianças. Com o seu conteúdo aprendi as respostas a questões que estavam emergentes nessa idade, e também a algumas perguntas que ainda não me tinham ocorrido.
Claro que o paradoxo da cegonha tinha já sido desmontado pelos rapazes mais crescidos. Vivíamos numa terra cheia de bebés, apesar de não haver nem uma daquelas simpáticas aves para os trazer, como ilustrado em múltiplos suportes.
Não sei como se terá perdido mas perdi-lhe o rasto, ainda muito novo. Teria sido na mudança de casa e de vida para uma cidade distante que ocorreu pouco depois desse episódio? Teria sido desviado por um dos amigos vizinhos a quem caí na asnice de o mostrar? Talvez. O facto é que, dali em diante, vali-me dos conhecimentos obtidos em múltiplas ocasiões face ao obscurantismo da rapaziada mais ignorante, aos preconceitos, às noções completamente erróneas sobre o sexo oposto… Por essa razão, tenho que agradecer aos progenitores aquele livro tão útil.