ALVOROÇO EM TERRASSINI

A notícia do assassinato só chegou depois da polícia. Não eram agentes regulares. De uniforme negro, armados de metralhadora e protegidos com capacete e colete militar, tinham aspecto ameaçador. Nada disseram, assumiram posições defensivas e controlaram as entradas e saídas do hotel, causando nos hóspedes alguma inquietação pela inusitada ocupação. As atividades do evento internacional então em curso continuaram como previsto, mas havia tensão no ar. Estariam em busca de alguém ou para nos proteger de algum perigo? Correu o rumor que estariam ali devido a um atentado ocorrido por perto, sem detalhar. Algum tempo depois, desapareceram tão rapidamente como tinham vindo. Mais tarde, a resposta sobre o que tinha sucedido apareceu na televisão e a notícia da execução foi rapidamente traduzida para diversas línguas dos presentes. Ao início, não sabendo bem o que tinha como objectivo o atentado, as autoridades protegeram alguns alvos potenciais. Afinal, era para nos defender.

Fui consultar os meus registos para não errar. De 20 a 25 de maio de 1992 estive em Terrassini, na Sicília, para participar num congresso sobre Ambiente, e foi quando sucedeu o episódio acima relatado. Os detalhes só os soube depois, e podem ser resumidos como segue. Era uma vez um juiz corajoso que decidiu  enfrentar os chefes do crime organizado de Palermo, a Cosa Nostra. Em Itália, naquele tempo, quase ninguém tinha coragem para confrontar os mafiosos com as evidências de extorsão e morte, pois podia pagar muito caro pela ousadia. E o juiz pagou. Era uma vez um juiz. Estudaram os seus movimentos, colocaram explosivos na estrada e mataram-no quando o seu carro passou. Giovanni Falcone pagou com a vida por agir do modo correcto, defendendo a lei e enfrentando os poderes obscuros que controlavam as vidas de todos de maneiras ilegítimas. Um exemplo. Anos mais tarde, os criminosos foram presos.

Para terminar, devo acrescentar que aqueles dias ficaram na minha memória também por aquilo que aprendi, experiências de outras geografias. E ainda por um fantástico passeio pela Sicília. Juntaram-se quatro maduros e escolheram uma das propostas anunciadas no hotel para um dia com motorista. Na costa sul visitámos o bonito templo grego de Concordia. Erigido numa colina verde, as colunas de mármore brilhavam ao sol. A seguir, subimos aos dois mil metros para observação do Etna em actividade. Com neve até aos joelhos1, vimos a lava vermelha na cratera. Mais uns quilómetros e, à luz suave do fim de tarde, Taormina parecia belíssima. 

NOTA: 

1- ler ALUGAM-SE GALOCHAS

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