A primavera não me chegou no dia e hora calculados para o último equinócio. Atrasou-se? Não, mas só senti a sua vinda uma semana depois, a meio da noite, quando o melro desenrolou o primeiro canto do ano ao luar. Aceitei a cantoria com um sorriso agradecido, aborrecido que estava com a insónia prolongada.
Estava a ouvir o melro cantar na escuridão quando, não sei bem como, comecei a entender o que a ave dizia a todos os que ouviam. Depois de decifrar algumas palavras soltas, as frases completas fizeram sentido.
Assobiava ele que há falta de alimentos, pois rareiam os insectos devido ao uso excessivo de venenos, mesmo nas cidades. Dizia que tinha ouvido cantar a outro melro, que o ouvira de um outro (sim, porque os animais também usam redes sociais) que lá longe não se pode beber água, pois está envenenada por uma fábrica negligente. E continuava, relatando que muitos outros melros de outras tantas terras tinham respondido com um “aqui também!” E acrescentava que ele não tinha esse problema pois aqui no quintal há sempre água boa para beber e para chapinhar, o que é fundamental para remoção de sujidade das penas e de parasitas do corpo. No entanto, os melros da vizinhança tinham dito que há muitos quintais sem água, uma consequência da impermeabilização crescente nas cidades. O melro daqui sentia, isso sim, transtornos com o ar poluído que lhe faz mal. E não compreendia porque ninguém protestava pois, certamente, o ar com poluentes também faz mal a outras espécies. E descrevia a desgraça que lhe tinha sucedido, o ninho desfeito pela terceira vez por ventanias com nome de gente. Uma vez já tinha acontecido em anos anteriores, três era inédito, um exagero!
O melro, sem estados de alma, desfiou um vasto conjunto de factos relacionados com a degradação das condições de vida no planeta. E, mais para o final, cantou outro facto incomódo: não estão a aplicar-se os conhecimentos científicos que hoje temos à disposição de muitos países para minorar aqueles graves problemas, e não fazemos o suficiente para descobrir meios mais eficazes para a sua resolução. Pelo menos, no meio do nevoeiro denso da minha noite, foi assim que entendi o melodioso, demorado e bem detalhado assobio do melro.
Antes de adormecer, ainda me lembrei da voz arrastada do Tom Waits cantando “The piano has been drinking, not me!” Do mesmo modo como foi o melro que denunciou, não eu… E adormeci.