SINGAPURA

Nunca fui a Malaca, terra por onde os nossos barbudos antepassados andaram a roubar melhor do que os persas e otomanos que os antecederam e pior do que os que vieram depois, holandeses, franceses e ingleses.

Trago aqui a Península da Malásia, a designação actual daquela região, para falar de qualidade de vida. E a razão é fácil de explicar. Na cidade de Singapura, a mais desenvolvida naquela península, foi aperfeiçoado um método para quantificação do progresso dos esforços de conservação da biodiversidade no espaço citadino. O “Singapore Index”, também conhecido por ”City Biodiversity Index”, pelo modo como é calculado, revela muito sobre a qualidade de vida  urbana, pois, além de medir a biodiversidade nativa, faz a quantificação dos serviços ecossistémicos por esta fornecidos, assim como aborda a governança e gestão da cidade. Para quem é leigo na matéria, exemplifico alguns daqueles serviços: regulação do clima, benefícios para a saúde e o bem-estar, valorização paisagística, educação ambiental, e ainda  recreação e lazer nas zonas verdes, componentes importantes para a referida qualidade de vida.

Interessei-me por este tema quando ouvi dizer muitos disparates no conselho municipal de ambiente, mesmo por elementos com função executivas. Por isso estava sensibilizado para ele quando li um trabalho sobre o tal índice, e fui estudar as condições para a sua aplicação. Parte da informação necessária eu já tinha, parte era fácil de compilar, e a restante estava dependente da boa vontade dos serviços camarários.  

Em 2011, o vereador do Ambiente aceitou fornecer informação indispensável para o cálculo do CBI (City Biodiversity Index) para a cidade do Porto, se a Universidade fosse envolvida, o que ficou garantido pela minha coordenação como académico e não como ambientalista. Para mim era igual, pois sempre fui coerente nos dois papéis, mas ele não pensava assim. Pedi ajuda a alguns colegas para completar os inventários de fauna e flora, e ainda dados de área impermeabilizada, cobertura arbórea, espécies invasoras e outros detalhes. Perguntei a outras associações sobre acções de educação ambiental desenvolvidas na cidade, bem como o número de pessoas nelas envolvidas, sabendo já daquelas que tinham decorrido com a minha intervenção. Depois de muito insistir veio alguma informação da câmara, não a que eu queria, era escassa, e não foi fácil fazer a reconstituição do que seria o orçamento para a Biodiversidade. Em seguida, calculei o almejado valor do índice para 2011. O resultado obtido foi decepcionante, sendo muito baixo em comparação com outras cidades onde tinha sido usado. Apresentei os resultados do trabalho no conselho municipal de ambiente, e expliquei o que seria necessário fazer para melhorar.

Infelizmente, os poderes públicos atribuem pouca importância ao tema e não fazem a ligação da biodiversidade urbana com a saúde e com a qualidade de vida, não apreciam métricas de valoração das políticas de ambiente e não gostam de escrutínio. Como tal, e sem surpresa, não receberam bem a análise efectuada e não logrei incluir na agenda da câmara uma avaliação anual do CBI.

Depois de várias tentativas foi alcançado um acordo para calcular o índice para 2014, com a promessa de informação mais detalhada por parte da autarquia. Com essa garantia falei no tema aos meus estudantes e uma aceitou-o para mestrado.  Afinal, a promessa quase falhou e a minha aluna estava já aflita com o prazo quando recebi os dados, incompletos e arrancados a ferros. O resultado, calculado com informação mais robusta, não evidenciou melhorias em relação a 2011.

Partilhei o valor obtido com o secretariado da Convenção sobre a Diversidade Biológica e com o National Parks Board de Singapura. No ano seguinte respondi às perguntas que me enviaram e elaborei um documento de síntese, tal como solicitado por eles. Talvez por isso, em 2019 recebi um convite para ir a Singapura, enviado pelo serviço de parques com o qual tinha trocado informações. O objectivo da ida seria eu fazer a apresentação das dificuldades que tinha encontrado na aplicação da metodologia e integrar um grupo técnico de  discussão para aperfeiçoar o índice. Contudo, era já tarde. O estado avançado das minhas limitações físicas e, sobretudo, na fala, impediram a viagem e a participação. 

Não fui a Malaca, é verdade, e o ponto mais chegado onde estive foi o aeroporto de Bangkok, mas é um facto que merecia lá ter ido.

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