FRUTA DO TEMPO PASSADO

O baloiço tosco pendurado pelo pai na goiabeira faz parte das boas imagens que guardo da infância. E foi também nesse pequeno tronco malhado e flexível que aprendi a trepar, habilidade que depois desenvolvi na outra fruteira do quintal, a nespereira. Esta era uma árvore grande, aos olhos da criança que eu ainda era, sobravam dedos nas mãos para dizer a idade, e as temerárias aventuras de escalada eram realizadas às escondidas dos progenitores. Fosse pela transgressão ou para ir às nêsperas enrugadas, as mais saborosas, arriscar era compensador. 

Na infância, as coisas açucaradas eram uma excepção festiva. Por essa razão, a fruta consolava mais que o faz agora. A variedade era grande e comprava-se no armazém de víveres dos ferroviários ou às vendedeiras que passavam à porta, quitanda equilibrada na cabeça com os produtos da lavra ou do mato. Nesse tempo havia abacates, abacaxis e ananases, laranjas, morangos, melancias, maracujás, anonas e as já faladas goiabas e nêsperas. E bananas de aspecto e sabor diferente, a de Benguela, semelhante à que se cultiva na Madeira, e a minha preferida, a banana-macaco (que anos depois ouvi chamar de banana-maçã) perfumada, mais pequena e mais doce, de casca fininha. Menos frequentemente aparecia tangerina, sape-sape, côco e amora, da preta e da branca. Comidas sempre maduras e recentemente colhidas, todas tinham sabor, aroma e coloração no ponto certo. Que contraste com o que se compra hoje, tantas vezes bonito mas insípido. A mãe fazia coloridos doces com algumas daquelas frutas, e que bons eram! 

Anos mais tarde, já espigadote e morando noutra terra, outros frutos de casa meteram-se nas memórias. O quintal dos tios, a duas ou três dezenas de passos da nossa porta, era um autêntico pomar. Entrando pelo portão do carro descia-se por uma rampa suave, a casa à esquerda e o muro à direita, ao longo do qual uma faixa de terra tinha plantas ornamentais e fruteiras, uma pitangueira, um tomateiro da Índia e um mamoeiro, mais ao fundo. A seu tempo, os frutos amadureciam e cada um tinha os seus apreciadores. As pitangas são uma explosão sumarenta e ácida, os tomates da Índia (das índias ocidentais, evidentemente, e também conhecidos por tamarilhos) são um balanço equilibrado de doçura e acidez, e os mamões, de sabor suave e textura farinhenta, satisfazem ao fim de duas talhadas. Abaixo, ao lado do telheiro que servia de garagem e de abrigo à Diana, uma grande mangueira espalhava sombra e bombardeava ruidosamente a cobertura de chapas com deliciosas mangas. Contornando a casa, no pátio interior, uma anoneira dava-nos doces e sedosas anonas.

De alguns frutos comuns, como  tabaibo, coco, goiaba, papaia e mamão, já falei noutras memórias. E também de loengos, os meus preferidos, tanto pela doçura como pela consistência cremosa, e também por tingirem a língua de roxo. Eram colhidos nos matos e vendidos nos mercados e nas ruas por gente pobre para complementar a economia familiar. Falta trazer ao texto a singularidade de outros frutos da floresta angolana, pois a maioria dos leitores nunca os terá visto. As nochas são bonitas por fora, de um pardo sardento quase dourado, mas estavam no fim das minhas preferências pelo cheiro enjoativo, pelo sabor desinteressante, e pela  textura, com placas fibrosas no interior. Os frutos dos embondeiros eram chamados de ratazanas penduradas pelo rabo, para divertir a criançada. E a casca escura e aveludada, assim como a longa cauda (o pé do fruto ou pedúnculo) acentuam a semelhança com aqueles roedores. O nome nativo é múcua, e a polpa, de um branco amarelado, tem consistência fibrosa e seca. Contra as expectativas de quem a come pela primeira vez, desfaz-se na boca em poucos segundos, deixando uma sensação refrescante. Ficou o maboque para o final deste grupo, pela sua estranha estrutura. Quando maduro exibe uma coloração alaranjada e, ao longe, parecem mesmo laranjas. Na mão, surpreende por ser pesado e muito duro. Para chegar à polpa, composta de gelatinosos gomos castanhos, doces e adstringentes, é necessário quebrar a casca de madeira densa e resistente. Contudo, os conhecedores preferem fazer-lhe um orifício para sugar o delicioso sumo antes de partir a couraça. Quando secos na árvore, estes frutos podem ainda ter vários usos, e até vi instrumentos musicais feitos com eles. 

Por contraste à abundância dos da terra, os produtos frescos com origem na Europa não eram comuns pois estavam a muitos dias de distância, dez só para o barco, aos quais se adiciona o tempo de colheita, transporte, carga, descarga e distribuição. Certamente terei comido frutas como peras e uvas quando, aos quatro anos, estivemos em Lisboa e não só, mas nada ficou registado. Pelo contrário, lembro-me bem do primeiro contacto com ameixas, servidas num casamento rico em Angola, por volta de 1970. Para mim, essa é que era a fruta exótica. Também me lembro que um acordo comercial com a África do Sul, na década dos 70, permitiu a chegada de maçãs com muito bom aspecto, mesmo ao comércio no interior. No intervalo grande das aulas, várias vezes fomos à loja comprar cada um a sua, tirando-as da caixa de cartão onde vinham protegidas individualmente. 

Poderá considerar-se exagerada a importância que atribuo ao tema, mas é mesmo assim. Sintomaticamente, a frutaria dos grandes hipermercados sempre foi a zona onde andava mais devagar, absorvendo as cores e as formas tão variadas, e alguns aromas também. Nostalgia…

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