Tanta energia gasta e tanto tempo perdido, para nada. Feitas as contas, largas dezenas de milhar de euros nunca me chegaram. E teria sido tão importante poder gastá-los no laboratório.
O acordo com aquela câmara municipal não foi fácil de obter, mas, finalmente, havia um plano para os funcionários da dita começarem a frequência de ações de formação sobre temas de ambiente. Após várias reuniões sobre outros assuntos, nas quais fui expondo problemas originados por más decisões, o vereador ficou convencido da importância de ter pessoal mais qualificado, e de que era melhor fazer bem do que andar a corrigir erros. Incomodado com notícias desfavoráveis nos jornais, aceitou a minha sugestão.
Os serviços jurídicos camarários preparam um texto com as obrigações e os benefícios das partes intervenientes e eu, todo contente, levei-o para ser validado na faculdade. E seria o pessoal do meu grupo, estudantes de mestrado e tarefeiros graduados, que fariam grande parte do trabalho, com a minha supervisão. Estes receberiam um generoso pagamento, pois eu sempre fiz questão de pagar bem aos colaboradores.
Naquele tempo as universidades estavam proibidas de celebrar contratos de prestação de serviços, pelo que se usava um subterfúgio financeiro para obviar esse obstáculo. Uma entidade sem fins lucrativos servia de intermediária, e as verbas sobrantes das despesas necessárias à execução de cada serviço ficavam à disposição do respectivo responsável científico, descontadas já de 30% do valor global do contrato, “imposto” este que era doado à faculdade. Usadas para adquirir equipamentos e reagentes, para trabalho de campo e para ir a congressos fora do país, as sobras eram fundamentais para melhorar o trabalho científico de quem tinha possibilidade de fazer contratos com empresas e autarquias. E melhores condições permitem consolidar o grupo, atrair mais e melhores estudantes de pós-graduação e publicar mais em revistas científicas.
Na faculdade de ciências a entidade que fazia esse papel intermediário era a ADFCUP, e foi aí que levei a proposta de contrato que estipulava o pagamento de 15000€ anuais, durante cinco anos, renovável no fim desse período, em troca de formação em temas de Ambiente. Um mês passou e nada em resposta. No segundo mês fui falar com o diretor da faculdade, orgulhoso da minha iniciativa e desagradado com a demora. Disse-me que os serviços estavam atarefados mas eu que não me preocupasse. Passou mais um mês e nada, e a câmara já aos pulos.
Eu sabia que havia alguma inveja noutros departamentos da faculdade em relação à maior facilidade com que o nosso estava a obter encomendas de serviços. E tinham dor de cotovelo da modernização de salas e equipamentos para as aulas e também dos laboratórios de investigação, que estávamos a fazer com as verbas sobrantes desses serviços. Atitude incompreensível, pois a faculdade como um todo beneficiava com os tais 30% e poupava nos melhoramentos que, afinal, eram da sua responsabilidade. Talvez a demora fosse só para importunar, pensei. Adiante. Depois de muito insistir, no gabinete da ADFCUP disseram-me para avançar, que estava tudo bem. E foi isso que comuniquei ao vereador.
Alguns dias depois fui convocado para uma reunião na câmara. Pensei que fosse para acertar detalhes mas, afinal, era para uma pequena cerimónia de assinatura do acordo. Satisfeito e a fazer planos para o futuro imediato, levei uma das cópias, a qual entreguei nos serviços da ADFCUP.
No dia seguinte fui chamado ao gabinete do diretor, e a simpática secretária disse-me ao telefone: “… e olhe que ele está muito zangado!” Mal entrei ele fez um pé de vento. Que não podia ser eu a assinar, que eu tinha cometido uma ilegalidade, que tinha exorbitado competências, e que havia uma frase incompleta no contrato. E nem quis ouvir o meu argumento: não tinham visto antes?
Saí dali vergado, injustiçado, e tive que pedir novo documento à câmara para ser assinado pelo empata. Contudo, a oportunidade era um pássaro que tinha voado e o autarca, farto de indecisões, nunca respondeu.
Feitas as contas, subtraindo o imposto institucional e as despesas necessárias ao cumprimento do acordo, ficariam cinco mil euros anuais para eu gastar. Não ficaram.
O diretor tramou-me, prejudicando também a faculdade, e eu fui ingénuo ao não perceber. Que jeito teria dado aquele dinheiro…