“Onde está a orelha do leitão?” Pergunta retórica, pois todos os olhos se fixaram na face bonacheirona, corada e abanando que não, mas com uma expressão que o desmentia. Alto, que estou a colocar o reco antes do enredo, que é outro modo de dizer que a carroça está à frente dos bois. Haverá ainda quem saiba o que esta expressão significa? Adiante, vamos à contextualização.
Desde que me lembro, o Natal era uma festa de família. A avó, as suas duas filhas e os respectivos maridos, filhas e filhos. Vivendo todos na cidade então chamada de Nova Lisboa, a deslocação para o ajuntamento era curta, de bairro para bairro.
No início dos anos setenta nós fomos viver para oeste, junto ao mar, no Lobito, e eles para leste, na Vila General Machado. A distância aumentou para mais de quinhentos quilómetros, e o Natal celebrado em conjunto passou a exigir uma logística complicada.
A preparação da viagem levava vários dias. Na data marcada, normalmente na antevéspera do dia mais aguardado, bem cedinho, a saída de casa com destino ao centro de Angola era com olhos mal abertos e céu ainda a clarear. Dormitar no banco de trás era quase obrigatório, pelo menos durante algum tempo. A viagem no acanhado Mitsubishi colt, carregado até mais nada caber, durava quase até ao final da tarde.
Depois das curvas que antecediam o planalto, vinham as rectas intermináveis. Matos e plantações agrícolas eram dominantes na paisagem, pontuada por rios, quintas, aldeias, vilas e cidades. A verdade é que quase nada dessas longas horas do meio das viagens ficou registado, com uma excepção. Numa dessas deslocações, vimos uma grande extensão de plantas baixas, coroadas de coloridos frutos, madurinhos, perfumados, e um grupo de trabalhadores que os cortava à catana, mesmo à beira da estrada. Não vendiam os ananases, mas deram-nos autorização para colher dois ou três. Comemos um ali mesmo. As mãos, pingando sumo doce, ficaram peganhentas do açucarado fruto.
À chegada, abraços exuberantes e lágrimas de felicidade marcavam presença. Passavam rapidamente, havia muita coisa para fazer. Descarregar a viatura, distribuir os colchões pela casa, discutir os detalhes das operações, dar atenção à cozinha…
Sim, a cozinha era fundamental, pois havia que alimentar muitas bocas. Além do óbvio, a preparação dos petiscos e das guloseimas próprias da época, tantas vezes morosa, consumia tempo e muitas mãos. Assim o exigiam as refeições fartas, em contraste com a austeridade do resto do ano, e havia lugar para menú especial. Assim, o leitão era tradição, tal como o era o seu sacrifício, pois a criação comprava-se viva. A morte do bicho não era agradável. Confesso que me fazia impressão a gritante agonia do suíno, e poucos assistiam ao “espetáculo”. Eu era um deles. A curiosidade pesava mais do que a aversão.
Para sentimentos mais sãos, em vários momentos havia cantoria, com acompanhamento de acordeão pelo primo mais velho. O repertório incluía sempre o “Passarinho da ribeira”, a “Malagueña”, o “Adiós Muchachos”, o “Trem das onze”, algumas canções tradicionais, e o solo de “La cumparsita”.
Depois da sessão da noite, caminha. Os colchões, levantados e encostados às paredes durante o dia, eram espalhados pelos quartos e devidamente guarnecidos com lençóis e cobertores, atrapalhando tudo. Para a criançada, era muito divertido.
Mais importante era outro assunto. Formigava o entusiasmo e a ansiedade em relação aos coloridos embrulhos expostos junto à árvore de natal. A petizada espreitava-os sempre que havia oportunidade, sendo logo enxotados pelos adultos. O que calharia a cada um de nós? As prendas só ficavam disponíveis na manhã do dia 25. Pouco depois de acordar, cada um de nós, ainda em pijama, ou talvez não, essa parte está desfocada, corria para o pinheirinho enfeitado, esperando o ritual mais aguardado. O pai natal de serviço, com voz propositadamente rouca, farta barba de algodão, e engordado com almofadas por baixo do roupão, fazia o que lhe competia. Recebíamos o que nos fazia falta, roupa e calçado, mas vinha também um brinquedo, um livro… Claro que era inevitável, coisa de miúdos, olhar para as prendas que os outros recebiam, medindo-os com critérios pouco objectivos.
O intervalo na vida normal era curto, e chegava depressa o dia do regresso. À partida, tal como à chegada, as lágrimas de felicidade e de tristeza pareciam exageradas aos olhos das crianças, que trocavam olhares resignados enquanto eram espremidas, uma e outra vez, pela avó e pelas tias.
O regresso ao Lobito não tinha história, tirando a leitura dos livros frescos, as paisagens que iam desfilando, o cheirinho a mar, prenúncio da chegada, e o prémio para quem tivesse o primeiro vislumbre do Atlântico, jogo familiar para entreter os filhotes, e que passou para a geração seguinte.
Duas décadas depois, mais ano menos ano, comecei um novo capítulo de viagens de natal. Desta vez entre o Porto, Gondomar e o Algarve. Novos protagonistas e novas responsabilidades, mas com traços comuns, que ficam para contar noutro texto.
Com tanta coisa, quase me esquecia de falar do reco no almoço de natal. Pela mão do tio G, o leitão assado no forno chegava fumegante à mesa, mesmo a tempo da refeição. Ele conseguia sempre o melhor horário de assadura, mas, em contrapartida, “perdia-se” por uma das orelhas do bicho no curto percurso entre a padaria e a casa. E está revelado o mistério.