No primeiro ano éramos jovens, imaturos, e fomos atropelados por um sistema onde a excelência estava acompanhada pelo anacronismo, pela mediocridade e pelo discricionarismo obscuro e enviesado.
No segundo ano éramos ainda jovens, imaturos, e já indignados quanto baste. A universidade era muito diferente do que é hoje. As tentativas de mudança, esbarrando em mentalidades serôdias, pouco valeram. Mesmo assim, alguma coisa mudou. Com organização e teimosia, conseguimos alterar o modo como os exames eram marcados. Até aí, cada professor fazia a marcação das datas sem falar com os outros, e havia sobreposições. Com insistência dos estudantes, uns docentes mudavam as datas, outros não. Nesse ano, talvez no segundo semestre, fomos nós que elaborámos a proposta de datas, e, após muita diplomacia, o método foi aceite. E assim passou a fazer-se.
No terceiro ano ainda éramos jovens, imaturos, indignados, mas decididos a mudar mais. Claro que não era possível vermo-nos livres dos maus professores, mas esse problema resolveu-se com melhor estudo. Outros problemas, contudo, estavam à espera de soluções corajosas. E metemos mãos à obra.
Naqueles anos, havia muitos alunos e poucos espaços disponíveis. Assim, as salas e os laboratórios estavam ocupados das 8 às 20 horas. Quase ninguém queria aulas ao início da manhã, ou ao final do dia, e, no início de cada semestre, dezenas de pessoas passavam horas e horas numa fila, por vezes toda a noite, procurando ser das primeiras a escolher os melhores horários. Os alunos que não tinham vaga nos melhores, ainda assim, podiam ficar com turmas em horas menos más. O problema é que, quando chegava a sua vez de se inscreverem, muitas das vagas estavam já ocupadas por estudantes-trabalhadores, os quais podiam inscrever-se de véspera. Tudo estaria bem se não soubéssemos que metade destes tinham como único “emprego” serem filhos ou sobrinhos dos donos das empresas, ou de alguém bem colocado dentro delas. Viemos a descobrir que muitos dos comprovativos que tinham de entregar não eram das finanças ou da contabilidade, e não passavam de declarações fraudulentas, meras folhas com uma declaração manuscrita, sem timbre ou carimbo… A responsabilidade pela aceitação desses documentos estava depositada, há muito tempo, num funcionário da universidade. Nunca saberemos se o senhor M aceitava contrapartidas para fechar os olhos às irregularidades, mas, como não podia deixar de suceder, a suspeita andava no ar. Depois de negociações difíceis com as chefias, as inscrições foram anuladas. Com o voto da maioria, a “comissão de ano” acabou com a fila de espera e organizou um sorteio para estabelecer a ordem de nova inscrição nas turmas. As declarações fraudulentas foram rejeitadas e o processo decorreu sem injustiças. Nunca mais houve filas. Quanto a declarações falsas já não posso assegurar que não as houvesse, mas, pelo menos, a partir daí, exigiu-se a apresentação de documentos oficiais.
Incomoda-me saber que a cronologia dos factos relatados possa estar afectada por erros de memória. Afinal, passaram já quatro décadas desde que ocorreram. O que ninguém nos tira é a satisfação de termos melhorado a nossa passagem pela universidade, e contribuído para um futuro melhor de quem chegou depois.

Edifício onde funcionou a Faculdade de Ciências, até 2009, e onde está instalada a Reitoria da Universidade do Porto (fachada virada a sul).