PAULO  POR TERRAS DE STA JUSTA

Em que dá conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio em terras de Sta Justa & do rio da ferraria. E tambem dá conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas mais.

Deu-me especial gozo pedir emprestada ao Fernam Mendez Pinto a sua introdução à sua Peregrinaçam, e adaptá-la a um contexto geográfico mais próximo. E fi-lo para dar um toque exótico a este texto, que refere um conjunto de memórias relacionadas com aqueles locais. 

A primeira recordação que tenho da serra mais chegada à cidade do Porto é bem antiga, uma exploração que fiz ao Fojo das Pombas, com luminosidade velada e cheiro húmido a terra orgânica. Tinha grandes fetos à entrada, mas não vi pombas… Fomos também a uma mina, perto da ponte. A mina, um túnel horizontal escavado por escravos dos romanos,  escorria água de forma lenta, mas contínua, que ia ter ao Rio Ferreira, que se ouvia a correr mais abaixo. Passando a entrada, meio escondida pela vegetação, começámos a caminhar de ombros curvados rumo à escuridão. A água fria cobria as galochas até aos tornozelos. Acesas as lanternas, percorremos mais alguns metros pela acanhada galeria, com grossas gotas de água caindo na cabeça. Foi então que vi o objectivo da nossa intrusão. Nas paredes da mina, ao nível da água, dezenas de bolinhas esbranquiçadas coladas. Olhando com atenção, viam-se os embriões no seu interior. Nadando rapidamente por entre os nossos pés, os progenitores desaparecem num instante, procurando refúgio. Saímos satisfeitos, o ZP e eu. Missão cumprida com sucesso! Tínhamos visto a rara salamandra-lusitânica, e eu não fazia  ideia que esse  bichinho iria ser motivo para muitas outras deslocações à serra, reuniões na câmara, estudos, etc., mas cada coisa a seu tempo.

Também antiga é a  memória de uma caminhada com colegas de faculdade ao “Moleiro”, uma tasca manhosa,  mas muito popular, instalada numa decadente edificação de moer o milho. Ficava na margem direita do Ferreira, e servia petiscos simples, acompanhados de um vinagre turvo que os clientes bebiam alegremente. Felizmente havia cerveja. Anos depois voltei ao mesmo local, numa outra caminhada, desta vez a partir de Gondomar,  com os sogros. Era um hábito estival das gentes de povoações próximas, e foi difícil sentar nos bancos corridos de lousa, pois havia muitos clientes. Nesse tempo o rio ainda não era fétido, como veio a ficar, e dezenas de banhistas gozavam a frescura das suas águas, e davam mergulhos do açude revestido com altas e verdes ervas. O vinagre, esse era do mesmo pipo.

Nos anos noventa, para além de poluirem o rio, estragaram a serra. Ao desordenamento urbanístico e à falta de saneamento básico em Valongo, somou-se a plantação generalizada de eucaliptos. A paisagem ficou irrecorrível, e fui testemunha das “operações de preparação” das encostas. Bulldozers a fazer socalcos e enchendo de entulho as linhas de água. Era proibido, mas nenhuma das entidades com responsabilidade na matéria mexeu um dedo, mesmo com reiteradas denúncias. Estávamos no tempo em que o país tinha que gastar os milhões que vinham da Europa, e não se parava para pensar. Aos que só se lembram do desenvolvimento, seria bom reverem o que se perdeu, a ganância, a corrupção, tudo sem controle. E pensem nos custos de recuperação.

Estive uns anos afastado desses lugares, até que fui convidado para participar num projecto LIFE, da Comunidade Europeia, em 1995. Ficou sob minha responsabilidade a caracterização das populações de vertebrados, e participei no planeamento da área protegida que resultou do projeto, o Parque Paleozóico. Neste, as trilobites estavam em destaque, juntamente com a salamandra-lusitânica, os fetos raros, as orvalhinhas… Tive o prazer de partilhar com os colegas da faculdade de ciências muitas horas de trabalho de campo, muitas reuniões com a C. M. de Valongo, a elaboração de relatórios, e a escrita de brochuras de divulgação do património natural. Envolvi na investigação, nas atividades de divulgação e nas visitas guiadas para escolas, colaboradores do Fapas e estudantes da universidade do Porto. Com o parque em pleno funcionamento, houve algum atrito com os responsáveis da autarquia, e diferendos sobre operações de gestão e de conservação. Acabei por me afastar. O Parque Paleozóico teve sucesso, e foi  integrado no Parque das Serras do Porto, em 2017, que estilizou uma salamandra-lusitânica no seu logótipo.

Durante os anos seguintes, voltei à serra várias vezes, como para ver uma chuva de estrelas, para mostrar os fetos ou as plantas carnívoras a algum amigo, para fazer passeios de bicicleta com outros maduros, ou para passear com os filhos. 

Uma destas vezes, meti-me num labirinto de caminhos de serviço do eucaliptal, e não encontrei a saída. Depois de passar três vezes na mesma encruzilhada, e com a noite a chegar, tomei a decisão que me pareceu óbvia. Avancei para uma faixa corta fogo, meti o bloqueio do diferencial, as redutoras, e subi aos solavancos o declive muito acentuado até ao topo da serra, onde está o santuário e a estrada de saída. Problema resolvido. Os miúdos ficaram amassados, e não gostaram muito do “carrossel”.

Em 2004, ajudei um amigo colega de universidade, participando, e devo dizer que o fiz com pouco entusiasmo, num estudo de impacto ambiental. Este visava apurar  que efeitos poderia causar a instalação de uma mini-hídrica na Azenha das Oliveiras, no Rio Ferreira. A principal preocupação estava na salamandra-lusitânica, mas não só. Havia uma febre nesse tempo, que não era boa conselheira. Mais uma vez, era necessário aproveitar fundos comunitários para instalar infraestruturas de produção de energia em todo o lado. E muitas foram feitas, e depois abandonadas, com pouca preocupação sobre os danos causados. A do rio Ferreira não avançou.

Fiz também uma aprendizagem de alpinismo. Não sei de que modo fui lá cair, nem com quem fui. Lembro-me de chegar ao topo da serra, de caminhar desde a igreja de Stª Justa até uma parede rochosa inclinada, e de receber instruções do monitor. Este, logo de seguida, fez a demonstração de como usar o arnês e o “oito” para descer a parede em rappel. Depois fomos nós, um a um. Correu tudo bem.

Já bem dentro deste milénio, voltei a sujar as mãos pela serra. Fui ajudar a plantar carvalhos. Centenas deles. Foi no âmbito de uma iniciativa muito interessante, o Projecto das 100 mil árvores na Área Metropolitana do Porto, dinamizado por uma antiga aluna minha, a MP. Para essa acção de reflorestação, dei muitos carvalhos do viveiro que eu promovi, e que mantive com voluntários no Jardim Botânico do Porto, com autorização do prof. BC. Dessa vez, a reflorestação foi em áreas ardidas da serra, em terrenos geridos pela câmara municipal de Valongo, através do Centro de Interpretação Ambiental, orientado por outra antiga aluna, a RV. É compensador ver rostos com quem partilhei saídas de campo, idéias e conhecimentos, a contribuirem para um futuro melhor. Uma parte de mim continua com eles.

A fotografia também me levou ao caminho do vale do rio Ferreira, quando me pediram para orientar um workshop de fotografia como instrumento didático. Com o meu amigo RS, excelente fotógrafo, fizemos a parte teórica em auditório, e duas sessões práticas, uma delas no percurso acima referido, com vinte ou trinta docentes do ensino secundário.

Durante muitos anos, o acesso à pequena aldeia de Couce, na margem direita do rio, foi péssimo. A própria aldeia era miserável, em todos os sentidos, e passar por lá era recuar ao pior dos séculos passados. A excepção estava na eira, e, muitas vezes, fiz o caminho esburacado para a ver. Ao fim de semana, atravessava o extenso manto de eucaliptos, abstraindo das árvores, sentindo apenas o fresco e o verde. Pequena e arranjada, com lajes de lousa,  a eira era uma visão bucólica mesmo à beira do caminho, de onde não se viam os tugúrios de Couce. Com o Parque Paleozóico chegou o saneamento básico, a reconstrução das habitações e o acesso calcetado. A eira ainda era usada em 2006, mas a vida nova mudou a aldeia e os seus hábitos. Hoje, há habitantes nas casas, mas  a eirinha está  abandonada. 

Poderia continuar a desenterrar memórias de peripécias passadas nestes locais, mas é tempo de fechar. E faço-o trazendo agora a Maia, que gostava de passear por aqueles sítios, cheiretando vestígios de ouriços ou de raposas, e também a Nala, que, ainda cachorrinha, me fugiu junto à ponte de Couce. Correndo por cima de muitas toalhas estendidas na margem do rio, derrubando sacos e merendas, deixou-me envergonhado perante duas dezenas de veraneantes. Pouco exigentes com a qualidade da água, mas  ciosos do seu sossego, ficaram com cara de pouco amigos. Com razão. A Nala, já velhota, acompanhou-nos também no último pic-nic. Na frescura do fontanário de Couce, à sombra de um grande carvalho, partilhou com a Anjos e comigo um saboroso frango de churrasco.

A eira de Couce, em 2006.

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