Sacos cheios com caveiras estiveram meses pousados no chão, a ganhar pó. Na penumbra do corredor de tecto baixo e cheiro a papéis velhos, alinhados contra a parede, os sacos esperavam um destino estranho, para não dizer de outra forma: a incineração. Um dia, peguei numa das caveiras e levei-a. Era a que estava em melhor estado, entre muitas a esboroar.
Demorei algum tempo até tomar a decisão. Conversei com colegas sobre o assunto, e mais ninguém queria nada daqueles ossos. A bem da narrativa, é necessário esclarecer que tinham origem na escavação arqueológica de um antigo mosteiro. Este, tinha ocupado o local onde, no século dezanove, foi construído o edifício da Academia Politécnica do Porto, e que hoje é a reitoria da universidade. Eram um estorvo, completados há muito os estudos de que tinham sido alvo, e, não sabendo o que fazer com eles, alguém decidira que o melhor seria queimá-los.
Aqueles ossos antigos causavam-me um certo fascínio. A posse de uma caveira, com todo o mistério que lhe está associado, e uma vaga sensação de transgressão (seria legal?) faziam com que eu quisesse mesmo uma cabeça para mim. Não era curiosidade científica, nem reverência. O facto dos sacos conterem restos acastanhados para queimar, vestígios anónimos de um passado distante, tornava-os impessoais. Não me motivaram empatia, eram só ossos. Hoje, pergunto-me se estaria certo.
Diferente era o alvo esqueleto, completo, em exposição no mesmo corredor. Armado em posição natural, tinha objectivos didáticos, numa instituição onde se ensinava e estudava antropologia física. E qual era, afinal, a diferença? Um cartão datilografado, já amarelo, indicava a data, o local de origem, e tinha um nome, o nome do morto. E o nome tem muito poder. Para mim, o nome é transformativo, quase mágico. Aquele esqueleto não era só um monte de ossos, era o que restava de uma pessoa. Fazia-me impressão, uma sensação desagradável. O cartão datilografado e amarelado, por si só, poderia ser objecto de estudo de antropologia cultural sobre os conceitos de quem o mandou escrever, acerca do mundo que partilhamos com os outros seres vivos. Por sua vez, será que a minha falta de empatia para com os ossos anónimos não merece também estudo, ou, pelo menos, uma reflexão mais bem fundamentada?
Voltemos à “minha” caveira. Durante muito tempo esteve no sótão, entre livros, cristais, fósseis, medalhas, penas, peles de animais, fotografias antigas e outros objectos pessoais. Depois, emprestei-a para uma sessão de praxe universitária. Nunca mais a vi. Afinal, nunca foi minha, e seguiu o seu caminho.

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