O homem apareceu, primeiro a cavalo, com farda clara, binóculos ao peito, carabina a tiracolo, e depois a conduzir o Land Rover pela “picada” arenosa no meio do mato, passando por árvores baixas e ervas altas amareladas pela poeira. Uma voz profissional, descrevendo as tarefas do garboso figurão, quase declamando, dava o necessário contexto às imagens exibidas. Dizia que uma nova geração de veterinários andava a trabalhar nas reservas de caça, designação afrancesada do século 19 para as zonas que viriam a ser chamadas de parques nacionais e parques naturais, mas que mantinham aquele nome na linguagem popular. Os técnicos tinham por função vacinar as palancas-negras, já ameaçadas de extinção nos anos setenta do século 20. Também era da sua competência dissuadir a caça ilegal, e o recenseamento das populações das espécies mais importantes.
A peça de propaganda, pois era mesmo disso que se tratava, inseria-se na informação veiculada no início das sessões de cinema em todo o império, exaltando o que convinha, as inaugurações, os progressos, as obras recentes, e omitindo as desigualdades, a pobreza, os excessos de exploração de pessoas e bens… Enfim, uma verdadeira lavagem ao cérebro, e vista como tal apenas por quem estava desperto para essa realidade. Só mais tarde vim a saber que datava já dos anos 30 a criação das primeiras reservas em Angola, proibindo a caça em vastas áreas. Os sucessivos governos do país, primeiro, dando seguimento a convenções internacionais. Segundo alguns peritos, numa fase posterior, pressionados pelas grandes potências devido às políticas praticadas nas colónias, e procurando obter trunfos para contestar essa opinião, foram apresentando medidas consideradas progressistas relacionadas com a conservação da Natureza. Foi desse modo que foram declarados parques em territórios coloniais. Muito antes de se começarem a aplicar os mesmos princípios em solo europeu.
Regresso agora ao pequeno filme mencionado mais acima. Em mim, a peça fez efeito. Fiquei a matutar no assunto e, pouco tempo depois, a decisão estava tomada: eu seria um veterinário como aquele. E foi essa a resposta que passei a dar a quem perguntava ao adolescente que eu era nesse tempo, o que queria fazer na vida. A resolução não teve objeção familiar, e devo também dizer que não foi só dessa vez, foi sempre a atitude dos pais perante as minhas escolhas.
Vivendo em Camacupa, uma vila do centro de Angola, a minha decisão implicava uma sobrecarga no orçamento familiar. Não seria imediatamente, pois seria necessário finalizar o liceu antes de qualquer resolução importante. Primeiro, teria que fazer o percurso até ao final do antigo quinto ano, ainda na vila. A partir daí, seria um processo progressivamente mais complicado. Mais dois anos a frequentar o liceu da cidade capital de distrito, que distava cerca de uma centena de quilómetros de casa, e, uma vez terminado o antigo sétimo ano, um salto muito grande até Luanda, para os estudos superiores. Não seria fácil, pois ficava a oitocentos quilómetros, e, por esse motivo, implicaria uma logística mais dispendiosa.
A guerra civil, iniciada em 1975, haveria de inviabilizar os meus planos. A fuga familiar para a Europa mudou completamente o contexto de carreira. Terminados os estudos liceais, tive que repensar o futuro de outro modo. Não me via a tratar de vacas, e ainda menos a cuidar de gatinhos e de cãezinhos. Foi assim que me fiz biólogo.