O “Búfalo” era o fotógrafo da vila, e a alcunha tinha algum fundamento. De pescoço curto e grosso, cabelo oleoso e desalinhado, caminhava sempre com a cabeça para a frente, como se fosse investir. Óculos de aros pesados, pretos e de lentes espessas faziam a personagem ainda menos simpática.
Quando comecei a brincar com um caixa fotográfica, era ao laboratório do búfalo que eu levava os rolos de formato 120 para revelar. E, depois de escolher o que não estava completamente estragado, encomendar as respectivas cópias em papel.

“Isto não presta!” A opinião profissional do búfalo estava certa, e não se podia esperar mais de uma lente de plástico saída numa rifa de feira. Apesar disso, a minha opinião era diferente. Sendo filho de fotógrafo amador, sabia bem que há fotografias que, mesmo desfocadas, tremidas, ou com exposição deficiente, têm valor pela informação que contêm. Há momentos irrepetíveis, locais onde não regressaremos, pessoas que não reencontraremos, detalhes nos quais ninguém tinha reparado anteriormente… Para além dessa regra fundamental, outra era também relevante. Aos quatorze anos, eu sentia que tinha de construir o meu próprio acervo, e o tempo corria sem esperar.
Regressemos agora ao laboratório do búfalo, quando ele tentava rejeitar o serviço, e eu tentava dizer-lhe que não era tudo lixo. As primeiras provas em papel foram do tamanho padrão da época, isto é, quadrados com 9 cm de lado, e as imperfeições causadas pela lente ficavam demasiado evidentes. Foi então que ele, búfalo mas não burro, sugeriu que se fizessem fotografias menores, precisamente para não ampliar tanto os defeitos fixados nos negativos. E resultou mesmo.
Ainda hoje guardo um álbum com dezenas de pequenas fotografias a preto e branco que não prestam, e, apesar disso, com tanto valor. Se não fossem elas, as minhas memórias sobre a adolescência há muito que se teriam desfocado ou desvanecido. Como me lembraria da falhada tentativa familiar de criação de coelhos, pois ninguém quis comer quando cresceram? Teria eu alguma recordação da rara borboleta-caveira que apareceu moribunda no quintal, e que fez a admiração e o espanto dos amigos a quem andei a exibir o troféu? E será que guardaria memória das feições da decidida colega de liceu que me pediu para eu ser seu namorado, mas não antes de eu lhe escrever uma carta bonita? E tantas outras histórias…
Sim, passados tantos anos desde que fui mais teimoso do que o búfalo, sinto que tinha razão do meu lado.
