O VELHO, A ROM E A POLITIQUICE

Toc, toc, toc, soava a bengala do octogenário quando saía da toca, um gabinete caótico a meio do longo corredor de tecto baixo. De vez em quando, metia conversa com as raparigas que estavam sentadas junto às janelas. Perguntando o que estudavam, espreitava por cima do ombro de uma delas para livros e cadernos. Ou talvez não. Elas, escondendo os decotes, mostravam um sorriso amarelo ou divertido, conforme a sua personalidade.

O velhote curvado estava longe dos tempos em que tinha sido cientista relevante, à maneira do século 19, tendo abordado temas diversos como a antropologia, a medicina e a ornitologia. E é precisamente sobre o seu interesse pelas aves que trago o Professor Santos Júnior a este texto. Num tempo em que o conceito não tinha sido aplicado no país, convocou o seu prestígio e a sua influência para a criação da Reserva Ornitológica do Mindelo, a ROM, a primeira área protegida de Portugal, estabelecida com o acordo dos pequenos proprietários, e usando a regulamentação da Direção Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas. Ficou proibida a caça, e deu-se prioridade à anilhagem para estudo das migrações das aves. Decorria o ano de 1957.

Com o passar  das décadas, consequência de muitos factores, a degradação da reserva foi-se acentuando. O esquecimento a que foi votada pela entidade responsável pela conservação da natureza, juntamente com o desleixo da autarquia, determinaram a inimputabilidade dos que mais contribuíram para essa degradação. 

No início deste século, em conversa com o Pedro Macedo, da Associação dos Amigos do Mindelo, ele perguntou-me a razão da Universidade do Porto ter virado as costas à ROM. Eu respondi que alguns docentes faziam lá aulas de campo, e que outros faziam ouvir a sua opinião através de associações ambientalistas, pedindo a integração na rede nacional de parques e reservas. Nunca tinha havido qualquer posição oficial da universidade sobre o assunto. Eu disse-lhe que o melhor seria ele escrever uma carta ao reitor, e foi isso que ele fez, após combinarmos as linhas gerais da mesma. A carta teve consequência e, algumas semanas depois, o vice-reitor Ferreira Gomes chamou-me. Pediu-me para reunir um grupo de trabalho e fazer propostas sobre o assunto. Comecei a contactar as entidades que poderiam participar numa solução, mas, pouco tempo depois, o reitor Novais Barbosa transferiu essa responsabilidade para o CIBIO, Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, sem me dar conhecimento prévio, e sem eu saber o que teria dado origem a essa decisão. Enfim, alguém teria sentido que estaria melhor colocado para essa tarefa, e teria movido a sua influência na reitoria… 

O trabalho posteriormente elaborado pelo CIBIO possibilitou a classificação da ROM. A Junta Metropolitana do Porto assumiu o processo e deu reconhecimento oficial à reserva, em 2009, integrando-a na nova “Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde e Reserva Ornitológica de Mindelo”. O que  tinham exigido as associações, ao longo de tantos anos, tinha finalmente acontecido. 

Infelizmente, no terreno nada mudou. O presidente da Câmara de Vila do Conde, Mário Almeida, sempre tinha dito que não pagaria um cêntimo para a reserva, e assim continuou. A Junta Metropolitana do Porto não tinha vocação nem orçamento para gerir uma Paisagem Protegida. Por seu lado, o estado central  nunca assumiu essa despesa. E a ROM continuou a degradação. No terreno era recorrente o despejo de entulho e a exploração ilegal de areia, entre outros problemaz.

A partir de 2013, tentei afincadamente, com a câmara municipal, estabelecer um programa de conservação e sustentabilidade para a ROM, juntando ao processo a faculdade de ciências, o CIBIO, o Fapas e os Amigos do Mindelo, entre outras entidades. A receptividade da câmara foi muito boa, facto para o qual não terá sido alheia a confiança da vereadora com o pelouro do ambiente, um conhecimento dos tempos de escola, e também o afastamento do jurássico presidente da autarquia. Foi instalada pela vereadora uma comissão de trabalho, que teve resultados positivos. Eu e os meus colaboradores tivemos o gosto de  elaborar e apresentar um documento com metas, orçamentos, entidades a envolver e potenciais fontes de financiamento. Os principais objectivos eram a conservação e a educação, ficando a fruição em plano secundário. A ideia era lançar a ROM renovada, dá-la a conhecer, estabelecer parcerias, e preparar uma candidatura a fundos comunitários para a sua consolidação e reabilitação.  

A autarquia gostou, mas estava refém do parecer positivo do conselho directivo da nova área classificada, onde tinha assento um membro do CIBIO. Desconheço se o nosso projecto terá sido discutido nesse conselho. Apesar dos vários  contactos que tive com o seu director, o facto é que, ao fim de 18 meses de espera, não houve qualquer contributo da parte do CIBIO.  Um dia, por obra do acaso, encontrei à porta da faculdade os principais elementos do CIBIO, e confrontei o Nuno Ferrand com a atitude de bloqueio reiterado. Ele começou por negar o óbvio, e foi então que o seu braço direito, o Paulo Alexandrino, pessoa que eu tinha por ponderada e afável, se virou para mim e disse, em tom inqualificável: quem pensas que és para estar à frente deste processo? Respondi que tinha tanto direito como eles, e que até tinha experiência em ordenamento do território. A conversa azedou, e o chefe calado, mas estava tudo dito. Assim postas as cartas na mesa, tive que desistir. Quando há forças de bloqueio mais fortes que nós, com mais influência académica e política, não é possível avançar.

Hoje, a ROM está longe de cumprir as suas potencialidades. O principal objetivo passou a ser a fruição, e foi nesse sentido que foram feitos os investimentos na zona. A conservação e a educação ficaram em plano secundário.  

O texto vai longo, pois agrega memórias de várias décadas. Termino, regressando ao Professor Santos Júnior, sobre quem circulavam rumores de ligações menos claras com  passarinheiros, anilhadores de aves que vendiam parte das capturas, e havia alguma chacota por textos antigos que ele tinha publicado, com observações cómicas do comportamento de um macaco. O facto é que, apesar das contradições e dos métodos do passado, ele tinha sido um Homem com  visão de futuro.

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