Há ocasiões em que somos surpreendidos pela real dimensão de algo que recordamos da nossa infância, quando tudo nos parecia grande. Assim, foi uma sensação estranha quando vi fotografias recentes das casas do bairro onde cresci até aos dez anos. Afinal, não eram assim tão altas.
Talvez seja esse efeito a corromper a lembrança que me resta da colecção de borboletas da mãe. Alinhados num quadro forrado com pano e pendurado na parede da sala, os belos insectos representavam a biodiversidade em Angola, e eram uma pequena amostra da vida que nos rodeava todos os dias.
Em destaque, mesmo ao meio, estava um lepidóptero enorme, com grandes “olhos” escuros nas asas, e que parecia feito de veludo amarelo-torrado a virar para laranja. Na época, tudo o que se parecia com uma borboleta, era uma borboleta. Hoje, sei que aquele magnífico ser vivo seria uma traça, grupo de insectos também pertencentes à Ordem Lepidoptera, mas de hábitos nocturnos, corpo peludo e antenas complexas. E aquela tinha as antenas felpudas e ramificadas, indicando claramente que era um ser nocturno, mais dependente dos aromas do que da luz para se orientar.
Passados tantos anos, não consigo saber qual a dimensão verdadeira daquela beleza. Só sei que era maior que a minha mão. Muito diferente, portanto, das traças que vemos em roupeiros, e cujas larvas fazem um festim nas nossas lãs. A traça gigante tinha entrado na nossa casa, de noite, como tantos outros insectos. Já não saiu. Não havia o conceito actual de evitar as coleções de seres vivos.
No lado oposto das preferências da mãe, e de que modo, estava outro insecto que também entrava nas casas. Quando eram grandes, mais uma vez maiores do que a minha mão, provocavam-lhe grande consternação, e ela tapava os olhos enquanto fugia, dizendo aflita “Uma teresa!” Assim mesmo, com minúscula. O estranho nome comum teria vindo da minha avó transmontana, e tem origem em Espanha, onde o bicho é chamado de santateresa. A versão portuguesa mais vulgar é louva-a-deus.
Para não alongar demasiado esta memória, mas para que não fique incompleta, devo fazer breve referência a mais alguns insectos que acompanharam a minha infância. Os bichinhos da chuva, pequeninos e esverdeados, apareciam pouco antes de chover, e desapareciam com ela. Não sei o que eram. Grandes libélulas eram visita recorrente ao nosso quintal, mas era impossível deitar-lhes a mão. Um dia, caiu à minha frente um exemplar moribundo. Apanhei-o e, quando morreu, abri-o para ver como era por dentro. Também abri um grande gafanhoto. Os bichos-comboio eram muito fáceis de apanhar. Havia-os de todos os tamanhos, e eu brincava com os maiores, mais grossos do que os meu dedos. E é a terceira vez que uso uma comparação antropométrica tão objetiva. Deixo para o fim um bichinho especial que nos rondava ao escurecer. O miruim existiria em dois estados. Ou voando, quase invisível, ou esborrachado na palma da mão, logo após a picada desproporcionalmente dolorosa. Adeus mosquinha minúscula. De mosquitos, bissondes, piolhos, carraças, bitacaias e outros, já falei 1.
NOTAS
1- Ler MATRIZ ORGÂNICA, ZEROS E UNS, OS PÉS DESCALÇOS, e também É MUITA ATRACÇÃO!